Disco: "Mono Maçã", Lê Almeida

Originalmente publicado no Dia a Disco

Se fosse pra falar em termos tradicionais (e ultrapassados), Mono Maçã não seria exatamente um álbum cheio e sim cinco ou quatro canções postas num disco com algumas vinhetas musicais. Vivendo no tempo em que estamos, no entanto, descartar a idéia de”Mono Maçã” como uma obra, principalmente pela “justificativa” das faixas menores, quase microscópicas, é o mesmo que dizer que oTransporpiraçõesSemi Hippie são músicas. Taxar os 39 segundos de Sonho K e o meio minuto de Jardim da Tarde como vinhetas é uma questão de descrever, não esgotar. Pois por mais efêmera que seja a audição do disco (cuja duração mal chega aos 21 minutos), o que se ouve é uma obra completa e desenvolvida.

Ouvir Mono Maçã é como dar uma olhada no bloquinho de notas do seu amigo talentoso, o que passa a aula inteira fazendo rabiscos. A própria imagem dos rabiscos condiz com o sentimento adolescente e sonhador da maioria das canções. Jardim da Tarde é um sonho que tem uma ingenuidade quase pastoral, quase sessentista, reforçada pelo técnica vocal de veludo agudo e baixo que Almeida utiliza no disco. “Queremos uma tarde no jardim do céu”, explica Almeida. Por Favor Não Morra, tanto em título quanto em letra, é o tipo de declaração que, fora do disco, só um adolescente apaixonado seria capaz de dizer com tamanha pureza ou sinceridade. “Vai saber, só vejo você, a parte mais louca do meu sonhar amanhecer.” se ouve em Semmie Hippie Isso é poesia madura feita com um quê de falta de vergonha e desenvoltura quase púbere.

A tendência, então, é elogiar a técnica – afinal, ele definitivamente é mais talentoso que você – mas descartar as imagens como esboços, idéias inacabadas. O que muda essa visão é que o seu colega de sala, de nome Lê Almeida, não faz o que faz com muita pretensão. Ele não quer ser famoso, não quer expor seus acordes, de uma simplicidade traiçoeira, num museu chique ou badalado, pendurar seus refrões emoldurados numa parede. Inclusive ele vai muito bem, obrigado, sem ter muita atenção ou hype. Esse não é o primeiro e provavelmente não vai ser o último trabalho do rapaz, que tem como precedente alguns compactos e dois EP’s, um dos quais (Révi) rendeu a atenção que eu venho dado a ele. A música dele existe em outra “dimensão” artística, o que faz os seus comentários sobre faixas “concluídas” e músicas com começo meio e fim uma besteira, honestamente.Pois a obra “completa” que Almeida apresenta em doze faixas funciona do mesmo jeito que um videoclipe. Pelos fragmentos sonoros e melodias curtas, porém não fugidias, de Mono Maçã, o objetivo é mais sentir uma experiência do que ouvir ou entender um disco. Não que o disco sugira uma viagem, apesar de algumas inclinações psicodélicas – o mais importante é aproveitar o disco sem pensar muito ou destrinchá-lo.

Próximo de um som cuja vibe de cabelos oleosos e jovens desleixados deve muito aos anos 1990, Almeida apresenta um disco de melodias prosaicas, assobiáveis, cantando com uma voz que é tanto sua quanto do tratamento que a gravação lhe dá. E por mais que a nova onda do imperador alternativo tente obrigar quem escreve a falar alguma coisa sobre a fidelidade sonora dessas canções, a questão central não é essa. A simplicidade que transparece no disco tem mais a ver com a afinidade entre o tipo de composições que almeida escreve e uma produção mais nua do que a apresentação de uma proposta baseada na percepção do som ou pegar carona em uma moda. O fuzz, a reverberação, as batidas abafadas e os vocais distorcidos não são fatores determinantes, são aspectos que mais destacam a música do que a caracterizam. Pois a verdade é que, fosse Mono Maçã um disco acústico, sem produção, mais nu do que já é, as composições se sustentariam.

Quando não se sabe tanto ou não se ouve muito de música, a impressão que se tem é que tudo o que o movimento punk trouxe foi uma força da natureza agressiva e revoltada de dedos apontados pra tudo quanto é lado. Mas a verdade é que, já na época, havia uma alternativa menos “violenta”. Os Ramones fazendo cover dos Beach Boys e a energia dos Buzzcocks e mesmo do Blondie indicava um caminho menos tenso e, conseqüentemente, menos radical do que a imagem de garotos sujos que todos nós temos dos Sex Pistols até o momento em que se procura saber melhor sobre o movimento. Lê Almeida vem de uma linhagem que começa no desleixo bêbado dos Stooges e acaba na comunhão (quase um sacrilégio, para os mais xiitas) entre recursos de expressão mais sujos e uma sensibilidade mais delicada e de coração mais aberto. O tipo de desenho imaginário cuja cor deve ser as mesmas que se vêem, desbotadas, na capa do disco.

[“Mono Maçã”, Lê Almeida. 12 faixas gravadas pelo próprio artista. Lançado pelo Transfusão Noise Records em Dezembro de 2010]

[rating:4.0/5]>

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3 respostas para Disco: "Mono Maçã", Lê Almeida

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  2. Daniel disse:

    Puta texto chato … Lê Almeida, você é homem ou mulher?

  3. Rafael Abreu disse:

    Lê Almeida é homem, cara.

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