Radiohead: 1 ano de "In Rainbows", o possível show no Brasil (?) e dueto com Björk

Your jigsaw is falling into place

Então, já faz um ano. Um ano e um dia que o link para baixar “In Rainbows”, sétimo disco de estúdio do Radiohead, aterrissou nas caixas de entrada de milhões de e-mails ao redor do globo. O preço pago por esse link era você quem decidia – “it’s up to you”, lembra?

“In Rainbows” foi o álbum que mudou as coisas nessa década de incerteza. Longe de apontar respostas e de se tornar um modelo de negócio viável para qualquer banda que queira comercializar sua música, a estratégia de lançamento do disco era um chamada para discussão a quem consome e a quem produz música. E deu certo.

Tudo ainda é muito fluído quando se tenta pensar para onde o comércio de música está indo, mas é certo que mais e mais artistas se dispuseram a experimentar nesse ano pós-“In Rainbows”. Quem imaginaria, lá em setembro de 2007, que um ano depois Nine Inch Nails, The Raconteurs, Bloc Party, David Byrne, Brian Eno, The Pretenders, Oasis, Girl Talk, Coldplay, Keane, CSS, Kings Of Leon e vários outros estariam quebrando a cabeça para acharem a melhor forma de lançar seus novos trabalhos – seja oferecendo música de graça, seja liberando o álbum inteiro para download, seja dando a posibilidade dos seus fãs de comprarem o disco direto do site da banda, etc.

A proposta de “In Rainbows” também foi uma espécie de provocação ao consumidor. Ao dizer que “é você quem decide” o Radiohead se dispôs a ouvir o quanto valia sua música, mas também perguntou para todos os seus fãs se eles, que supostamente valorizavam a música, estavam dispostos a pagar por ela. Eu pelo menos fiquei bastante mexido com essa história. Como detentor de uma biblioteca de MP3s suficiente para pegar uns bons anos de prisão quando a RRIA bater aqui em casa, confesso que não fiquei nada bem quando a minha banda preferida me perguntou o quanto valia o novo disco dela. Coloquei, com consciência dolorida, £ 0,00. Acabei comprando a DISCBOX (versão luxosa do álbum) dois meses depois.

O futuro talvez não pertença ao Radiohead, mas provavelmente será influenciado por ele.

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Radiohead chegando mais perto do Brasil

Sim, eles estão vindo…para o México!

Foram anunciadas ontem as primeiras datas da esperada turnê da banda pela América Latina. Mexicanos felizes verão o Radiohead nos dias 15, 16 e 17 na capital do país.

Os boatos de que a banda tocaria no Brasil, no Chile e na Argentina entre março e abril você já conhece, mas agora dá para acreditar um pouco mais, não dá?

2009 vai ser um graaaaaaaaande ano, não vai?

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Björk chama Thom Yorke para novo single

Depois das baleias e do Tibet, Björk está tentando salvar dessa vez seu próprio país da destruição ecológica e decidiu gravar um single para ajudar. Daí chamou o amigo Thom Yorke para fazer os backing vocals de “Nattura”.

O single estará disponível dia 20 de outubro. Essa é a segunda vez que os dois artistas colaboram. A primeira foi “I’ve seen it all” para a trilha de “Dançando no Escuro”.

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Review: “In Rainbows”

Aproveitando a oportunidade, republico a resenha do “In Rainbows” que fiz para edição de novembro de 2007 da Revista Your Mother Should Know.

Radiohead – In Rainbows

Quem acompanha o Radiohead nesses quase 15 anos de carreira percebe que a trajetória da banda foi guiada por redirecionamentos estéticos a cada disco, sejam eles mais bruscos (de “The Bends” para “Ok Computer” e depois rumo a “Kid A”), ou mais suaves (de “Pablo Honey” para “The Bends”, de “Kid A” para “Amnesiac”). “In Rainbows”, o sétimo álbum, pertence a esse último grupo de guinadas leves e certeiras. Mesmo com toda revolução relacionada com o seu lançamento, “In Rainbows” mostra um Radiohead de velhas cores em novos tons. São Thom Yorke & cia. pisando em terrenos familiarmente próximos a sua obra (o noise-rock, a eletrônica de vanguarda, o jazz, o rock progressivo, orquestrações suntuosas, baladas atmosféricas), mas de maneira suficientemente distante para saciar suas pretensões artísticas.

As batidas pesadas dos primeiros segundos de “15 steps” evocam “Amnesiac”, mas quando a guitarra (estranhamente semelhante aos Los Hermanos de “4”) e o baixo melódico de Colin Greenwood surgem, a música toma um novo rumo, com direito a coro de crianças. Na faixa seguinte, “Bodysnatchers”, a banda volta por um momento ao rock, mesclando a barulheira do Sonic Youth com os hinos de estádio do U2. No entanto, ao contrário do messianismo de Bono, Yorke foge do estigma de líder (“eu não faço idéia do que eu estou falando”).

“Nude” (também conhecida como “Big ideas”) é a famosa canção que atormenta o Radiohead desde “Ok Computer”. A faixa já teve diversos arranjos e versões, como a que é mostrada no documentário “Meeting People Is Easy”, sobre a exaustiva turnê de “Ok Computer”. Em “In Rainbows”, a música se torna a peça chave do álbum, resumindo grande parte de suas características marcantes. É uma balada atmosférica, na linha de “How to disappear completely” e “Subterranean homesick alien”, só que, ao contrário delas, “Nude” retoma uma espacialidade mais orgânica, construída com mais orquestrações e menos efeitos de estúdio (como em alguns momentos de “The Bends”).

Reflexo de seu álbum-solo “The Eraser”, Thom Yorke volta usar a voz como o leme emotivo de suas canções, como não fazia desde “Ok Computer”. Yorke canta de novo daquela maneira de que nós aprendemos a gostar, como se ele estivesse olhando e narrando o fim do mundo, a última explosão que dará cabo de tudo.

A grande diferença é que a atmosfera de “Nude” remete por meio de suas orquestrações a imagens marítimas, onduladas, como se as guitarras de “Nowhere” do Ride fossem substituídas pelos arranjos orquestrais rebuscados do Mercury Rev de “Deserter’s Songs”. Essa mesma atmosfera marítima invade outras faixas de “In Rainbows”, como “Weird fishes / Arpeggi” e “House of cards”. Essa última tem uma levada de guitarra quase praieira, solar, desafiando a pesada atmosfera de mares revoltos de suas cordas, que soa como se o Spiritualized fizesse cover de Jack Johnson.

Com 10 anos de “Ok Computer” completos em 2007, o Radiohead se apresenta livre de (quase) todas as paranóias e problemáticas introduzidas por esse álbum. “In Rainbows” é a coleção de canções mais pessoais de Thom Yorke em muito, muito tempo. Como em “All I need”, canção definitiva do Radiohead sobre amor, desejo e obsessão. É “Creep”, “High and dry”, “Climbing up the walls” e “True love waits” em uma única música. É o ponto alto de “In Rainbows”. O instrumental é bastante simples, uma batida fuleira de trip hop que vai duelando com um sintetizador pesado e distorcido e com notas esparsas de um piano, enquanto a voz canta, disléxica, a letra cheia de imagens estranhas e poderosas. Uma mariposa rodeando a luz no teto, um animal preso num carro, os dias que você escolheu esquecer. No final do segundo refrão, a melodia do piano começa ficar mais forte, até que explode junto com a discreta levada de bateria. É o momento em que o disco e o Radiohead se revelam em toda a sua grandeza. É o terror das últimas esperanças presente no refrão de “There’s a light that never goes out” dos Smiths misturado com o êxtase espiritual e idealista de “All is full of love” da Björk. É inefável. Nessa confusão de sentimentos, Yorke mata a charada: “it’s all right, it’s all wrong”.

Em “Faust ARP” a banda visita um território pouco explorado, o do folk. Há uma breve relação com “Go to sleep”, de “Hail To The Thief”, mas a faixa tem uma melodia doce, quase sessentista. O ambiente calmo logo dá lugar ao clima tenso de “Reckoner”, momento que mais lembra “Ok Computer”, mesmo com a ausência das guitarras. O falsete de Yorke chega ao máximo, se misturando ao belo arranjo de cordas.

“In Rainbows” acaba da maneira que começou, com sua familiaridade desconhecida. “Jigsaw falling into place” é sobre a perda de controle e chega a ser dançante, mas é conduzida por uma levada de violão, com quase nada de eletrônica. Preenchendo os espaços, há um coro que fica no limite entre o soul e o gótico.

A faixa final, “Videotape”, é mais um exemplo de que o hiato de mais de quatro anos fez bem ao Radiohead. Cada faixa parece ter sido meticulosamente construída, cada nota parece ter o propósito de ser magnífica. A canção é uma balada assombrada como tantas outras no repertório; no entanto, é dotada de uma atmosfera própria, de um estado de graça em que cada elemento se confronta e se harmoniza, como num beijo repelido.

No final da canção, quando Yorke canta “this is my way of saying goodbye / because I can’t do it face to face”, abre-se um vácuo passível de várias especulações. Seria “In Rainbows” a carta de adeus? Seria a prometida turnê mundial de 2008, também a última? Como que respondendo, ele emenda “no matter what happens now / I won’t be afraid”. Não importa mesmo. O futuro é algo que não cabe nem ao Radiohead prever. O que realmente importa é que mais uma vez – e já foram tantas – eles estão mudando o nosso presente e continuam o fazendo de maneira brilhante.

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4 respostas para Radiohead: 1 ano de "In Rainbows", o possível show no Brasil (?) e dueto com Björk

  1. Rodrigo disse:

    Radiohead é a banda mais importante da década. Deu o start em 2001 e agora consolida de vez seu posicionamento. Vamos ver o que eles farão na década seguinte.
    E parabéns pela resenha.

  2. Pingback: Nova da Björk com Thom Yorke - “Nattura” « BLOODY POP

  3. Pingback: “In Rainbows” vendeu pra caramba « BLOODY POP

  4. felipesantini disse:

    Muito bom cara!
    Vc disse tudo… se não são o futuro, certamente influenciaram nele!
    To pra ver alguma banda mais criativa e inovadora que ela!

    Dá uma olhadinha nesse post que eu fiz semana passada!
    http://parafusosolto.wordpress.com/2008/10/01/radiohead-inovacao/

    abs! E torcer pra eles virem logo pra cá!!!!!

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