Disco: "Kingdom Of Rust", Doves

Doves - Kingdom of Rust

Por mais que o Doves tente, insistentemente, escapar de sua aura urbanista, incrustrada de concreto e fumaça, mais eles mergulham na temática da vida moderna nas cidades. Por ser uma banda da região metropolitana de Manchester, o berço da revolução industrial e uma das primeiras cidades do mundo moderno, não se podia esperar algo diferente dos caras. O fato é que, assim como aconteceu com “Some Cities”, em “Kingdom of Rust” (o novo disco que sai dia 6 de abril na Inglaterra) o Doves se enfurnou num estúdio recluso, distante da agitação da cidade. As sessões de gravação começaram ainda no início de 2007, na fazenda de Jimi Goodwin na região de Chelshire, e, com muita calma e paciência, só dois anos depois o disco ficou pronto. Mas quando todos esperavam algo mais bucólico e “pé no chão”, a banda vem com outro álbum repleto de refrões antológicos, melancolias urbanas e pulsações da vida moderna; ou seja, o tipo de rock que Goodwin e os irmãos Williams fazem desde 2000 como ninguém.

“Kingdom of Rust” começa a mil, com toda a urgência de “Jetstream”, música que figura fácil entre as cinco melhores da carreira do grupo. Como que lembrando a época do trio como Sub Sub (um projeto antigo mais dance), a canção ganha uma atmosfera futurista graças à beats eletrônicos vestidos de trance à la anos 90 (talvez um reflexo da produção de Dan Austin do Massive Attack). De acordo com Goodwin, a vontade era criar uma música que casasse com os créditos finais de Blade Runner. Considerando todos os loops usados e a pulsação frenética dos efeitos eletrônicos, o paralelo da música com os tecladões atmosféricos do Vangelis é evidente. Ainda assim, a presença das melodias de guitarra de Jez Williams não deixa espaço para confusões: Jetstream só poderia ser obra do Doves.

A faixa-título (e primeiro single do disco) vem em seguida, e assim como “There Goes The Fear”, o primeiro single de “The Last Broadcast” (2002), tem a cara que um single carro-chefe de álbum deve ter pra lançá-lo ao topo das paradas. Embora no começo, carregada de uma levada meio country rock com psicodelia, a música se coloque em algum ponto entre Johnny Cash e Jason Pierce (Spiritualized), o refrão épico e cantarolável é território familiar pra banda.

O que sempre pareceu ser o diferencial do Doves é o apuro do trio na produção sem nunca parecer “super-produzido”. Isso os coloca num patamar musical que bandas mais populares não conseguem atingir (como Coldplay, Muse e Travis). “The Outsiders” e “House of Mirrors” são rockzões do tipo que botaria grandes platéias pra ferver, aos moldes de “Pounding” ou “Black & White Town”, e soam como U2 antes deles se tornarem chatos demais. “Winter Hill” e “10:03”, duas faixas produzidas por John Leckie (que esteve por trás das mesas de som em “The Bends” do Radiohead, por exemplo) são o ponto alto do álbum. O carisma da voz de Goodwin e as melodias atmosféricas que a banda cria sobre um ritmo caracteristicamente pop dá a essa parte do disco a eficiência radiofônica que possuem músicas mais conhecidas da banda, como “Caught By The River”, “Sky Starts Falling” e “Here It Comes”.

O único ponto baixo do álbum fica por conta da confusa “Compulsion”, uma espécie de pira “funk” de Goodwin. Soa como um LCD Soundsystem se o James Murphy não soubesse se encontrar muito bem entre suas linhas de baixo e seus beats dançantes. Em meio a um disco tão bom, a faixa fica como uma pequena decepção, embora desde o começo o disco se proponha a experimentar novos rumos musicais. O experimentalismo dá certo no caso de “Jetstream” e no dirty blues de “House of Mirrors”, mas não se acha ao procurar um lado meio Electric Light Orchestra pro Doves no caso de “Compulsion”.

No geral, é um disco consistente e bem característico do Doves, que por mostrar a banda tentando coisas diferentes dá esperança aos fãs quanto ao futuro. “Kingdom of Rust” pode ainda, com o tempo, virar o melhor álbum da carreira da banda, e se Goodwin e os irmãos Williams continuarem fazendo rock com essa pegada e eficiência, o predecessor pode vir a ser o clássico que a banda promete desde o primeiro disco.

[“Kingdom Of Rust”, Doves. 11 faixas com produção de Dan Austin e John Leckie. Lançado pela Astralwerks/EMI em Abril de 2009]

[rating: 4/5]

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2 respostas para Disco: "Kingdom Of Rust", Doves

  1. gi disse:

    Muito boa a resenha, Marcelo! Concordo e muito que Jetstream é uma urgência para começar o álbum novo logo.

    Só senti falta de Spellbound no teu texto, que para mim é uma das faixas mais belas. Parece ter saído diretamente de Lost Souls para o ano 2009. Dá vontade de chorar e saltitar ao mesmo tempo. Ok, isso é meio brega, mas a música realmente me conquistou de uma maneira que Here It Comes me pegou anos atrás.

    Achie Compulsion fraquíssima, mas em compensação 10.03 é linda e com um crescendo poderoso.

    Enfim, massa. Que bom ter álbum novo depois de tanto tempo! Se quiserem dar uma olhada, o Guardian fez uma resenha bacana do show e das músicas novas. http://www.guardian.co.uk/music/2009/mar/21/doves-concert-review Pena que eles continuam martelando nesta besteira de comparar com Elbow. 😛

    Ok, vou parar de escrever. Me empolguei. :}

  2. Leandro disse:

    Ótima resenha.
    Engraçado, de cara achei a estranheza de “10:03”, minha praia. Vejo que não é só a minha.
    O único porém, pra mim, é “Spellbound”. Ainda não desceu.
    “Compulsion” me foi apresentada com muito entusiasmo. Mas agora vou ouvi-la com outros “olhos”.
    Parabéns.

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