Disco: "Zii e Zie", Caetano Veloso

Zii e ZieNão há, simplesmente não há, como falar de “Zii e Zie“, o novo disco de Caetano Veloso, cuja estreia nos palcos brasileiros foi ontem, 08 de maio, no Rio de Janeiro, sem falar no seu predecessor, “” (2006). “Cê” está lá, em “Zii e Zie”, até no nome da banda que acompanha Caetano, mas, principalmente na sonoridade. E por falar na banda Cê, leitor, não se iluda: quando for elogiar ou blasfemar contra o novo disco de Caetano Veloso, leve em conta Pedro Sá (guitarra), Ricardo Dias Gomes (baixo) e Marcelo Callado (bateria). Eles são corresponsáveis por toda a sonoridade do novo disco.

No entanto, “Zii e Zie” não é uma simples continuação sonora do disco anterior. O Rio de Janeiro como principal tema, por exemplo, é em muito diferente da temática sexual que imperava em “Cê”. Até “Tarado“, talvez a música mais “sensual” no novo disco, é de uma leveza que  pouco lembra versos como “feliz e mau como um pau duro / acendendo-se no escuro / cascavel“. A sonoridade do disco, como já disse, permanece praticamente a mesma do anterior: a guitarra quase limpa e crua, indie, de Pedro Sá, ritmando, pontuando, cadenciando todas as músicas. Outro exemplo de diferença, a estética de “Zii e Zie” passa pela ideia, pouco original, de filtrar um gênero – o samba – por outro gênero – o rock, enquanto “Cê” era mais disperso e centrado basicamente no rock. Mas há mais (alguns diriam menos) do que sambas e rocks (ou o produto deles, chamado por Caetano de transamba) em “Zii e Zie”.

Em “Perdeu“, a faixa que abre o disco e que conta sinteticamente a história de um rapaz do morro, o que mais facilmente se nota é o ótimo riff de Pedro Sá. Com boa guitarra e boa letra, a música curiosamente se perde no refrão, quando a guitarra de Pedro Sá perde seu vigor e um teclado desnecessário entra para a voz de Caetano se tornar excessivamente épica. Aliás, o atual apreço de Caetano pela música quase no seu estado cru, de como apareceu em seu primeiro momento,  faz a maioria das músicas transitarem entre o muito bom e o fraco ou desnecessário. Por isso que, já ao fim de “Perdeu”, a guitarra que tinha se perdido ressurge, mais distorcida e vigorosa, o baixo de Dias Gomes se mostra mais presente, e a faixa recupera seu vigor. É um bom mas irregular início para um álbum irregular mas bom.

Sem Cais“, de Caetano e Pedro Sá, é uma das faixas mais “caetanas” do disco. Explicando: é daquelas boas músicas do baiano que facilmente seriam trilha de alguma novela das oito ambientada no Rio. A conversa entre Caetano e a guitarra de Pedro Sá durante a canção pode representar bem a parceiria entre a banda Cê e o cantor. Além disso, a bateria de Marcelo Callado em “Sem Cais” é primorosa. Se o ouvinte reparar bem, o conceito dos “transambas” de Caetano é, em todo o disco, amparado nas levadas concisas da bateria de Callado, que sintetizam as variadas batidas do samba nas músicas minimalistas e inacabadas de “Zii e Zie”.

Há ainda mais três, pelo menos, ótimas canções no disco. “Falso Leblon“, sobre uma garota do Leblon que consome drogas que, talvez, o rapaz de “Perdeu” distribuía. É uma música tão doída quanto a que abre o disco e bem bonita. Há “Lapa“, outra canção “caetaníssima”, uma homenagem à clara musa de Caetano em “Zii e Zie”: a região carioca e sua fusão geográfica de samba e rock. Em “Lapa”, por sinal, há algo inquestionável: a boa forma vocal de Caetano. Está entre as melhores formas de toda a sua carreira.  E podemos compará-la porque a linha vocal de “Lapa” é muito parecida às de outras músicas mais antigas de Caetano. Ainda que como compositor esteja mais fraco, escutar Caetano Veloso continua um prazer, principalmente por causa de sua impressionante voz.

E há, por fim, “A Cor Amarela“, a melhor faixa do disco, a única que veio ao mundo com suas arestas bem aparadas. O leitor talvez se assuste, mas é preciso falar: “A Cor Amarela” é a prova de que o axé não é um gênero estragado por si e que se houvesse artistas mais preocupados na música do que no sucesso comercial esse gênero daria ótimas músicas. Tudo do axé está lá: até “bunda” na letra tem. As palmas, o breque incendiário, as repetições sensuais. “A Cor Amarela” é axé do bom. Lembra os tempos em que o próprio Caetano, junto com a sua trupe tropicalista, ditava e animava os carnavais baianos. “A Cor Amarela” tem tudo para ser hit do próximo carnaval, basta que alguém como Ivete Sangallo ou Cláudia Leitte se anime em cantá-la e transformá-la no axé que potencialmente já é.  Só não pode estragar.

Há ainda faixas menos inspiradas, mas boas, como “Menina da Ria“, “A Base de Guantánamo” e “Ingenuidade“, mas “Zii e Zie” pode ser resumido ao ótimo quarteto “Sem Cais”, “Falso Leblon”, “Lapa” e “A Cor Amarela”. Essas canções sintetizam a ideia de Caetano em tomar o Rio de Janeiro como tema mas com uma abordagem estética que – como muitos já disseram – se aproxima mais de São Paulo. São as músicas que, postas em contraste com as de “Cê”, mais se diferenciam do disco anterior. Sem esquecer de que são simplesmente as melhores do disco, ainda que com problemas. Essa opção de deixar as músicas com muitas arestas, no entanto, é clara na atual obra de Caetano Veloso: a obra inacabada é a obra em progresso que é também a obra (não-)finalizada. Crua e incompleta. Pobre e requintada. E rica e requintada. E refinada.

[“Zii e Zie”, Caetano Veloso. 13 faixas com produção de Pedro Sá e Moreno Veloso. Lançado pela Universal Music em abril de 2009]

[rating:3.5]

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5 respostas para Disco: "Zii e Zie", Caetano Veloso

  1. Rodrigo disse:

    Caetano lançou um discaço. É o futuro da musica brasileira. Espero q as bandas percebam isso

    • Vinhal disse:

      @Rodrigo,

      não acho que o Caetano seja o futuro da música nacional. Há tempos ele é somente ele mesmo na música popular brasileira. E se um cara que há quarenta anos revolucionou a música brasileira ainda for o futuro eu acho que a nossa música já não é mais importante como foi no século passado.

      Tomara que o Caetano não seja o futuro da música brasileira! E nem o passado!

      Abraços

  2. Tomás Pinheiro disse:

    Pelo menos a resenha foi boa, pq teve uma q o cara falou isso: “São músicas que traçam conceitualmente um quadro de nossa condição humana atual, a do homem contemporâneo diante de uma realidade universal” – E na minha opinião, Caetano ja deu o que tinha que dar né.

    • Vinhal disse:

      @Tomás Pinheiro,

      Tomás, acho que é besteira ver o trabalho atual do Caetano com tanta conceituação. Ele próprio já deu a dica de que as músicas não são tão pensadas, mesmo. Elas são claramente simples. Inclusive, minha opinião é que o Caetano escolheu o rock cru que apresenta exatamente porque é o gênero mais simples e direto que há, ou seja, casa exatamente com a música simples e direta que ele quer fazer.

      Mas, sinceramente, acho que o Caetano tem muito a dar ainda. Basta ver que até no rock as letras dele são melhores do que 95% do que se faz no rock nacional. E digo isso achando que ele tem uma composição fraca nos dias de hoje. Ou seja, tá foda!

  3. CLAUDETE disse:

    CAETANO VELOSO

    PERDEU UMA BOA OPORTUNIDADE DE NÃO FALAR BESTEIRA. CAIU NO MEU CONCEIRO- XINGOU O PRESIDENE LULA DE ANALFABETO – QUE COISA FEIA – E DISSE QUE VAI VOTA NA MARINA – MENINO – CRIA JUÍZO NESTA CABEÇINHA.

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