Disco: "Veckatimest", Grizzly Bear

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Veckatimest, o terceiro LP da banda nova-iorquina Grizzly Bear, tem um quê de geografia.

Não só porque o título do disco seja o mesmo de uma ilha em Dukes County, Massachussetts, mas principalmente pela trajetória da banda, cujo contexto torna quase necessário o uso da expressão “paisagem sonora” (ou soundscape) em sua descrição.

Em “Horn of Plenty”, primeiro álbum, só com trabalho solo do vocalista Edward Droste, se ouviu um folk de quarto, lo-fi, permeado por influências eletrônicas sustentadas pelo bonito lamento que é a voz de Droste, as faixas quase sempre num limbo entre gemas sombrias e canções pop despreocupadas. “Yellow House”, por sua vez, cujo nome também tem a inspiração encontrada num espaço, – casa amarela é a casa da mãe de Droste, onde a maioria do álbum foi gravada – apresenta o conjunto numa profusão de sopros e vozes que parecem situar a banda em uma floresta, as faixas com expansões e contrações sonoras e os violões atingindo um tom orquestral não por complexidade, mas por reverberação.
E a mudança de paisagem continua no mais recente trabalho do quarteto, sendo que, dessa vez, a impressão que se tem é que o disco foi simples e definitivamente gravado em estúdio. Com gosto e som acústico, talvez até do tamanho de um estádio – mas estúdio. É o tipo de álbum que, como o “Kill the Moonlight” do Spoon, é cheio de ecos, pontos vazios. Pelos primeiros segundos de “Southern Part”, canção que abre o LP, já se percebe que a tal da soundscape é mais espaçada e o tom mais animador: “Two weeks”, de tom brincalhão e marcada por um piano simples, é possivelmente a canção mais doce que o conjunto já escreveu. Se a maior parte de “Yellow House” sucede na combinação de vocais de coro, metais e violões grandiosos, “Veckatimest”, ao mesmo tempo em que mantém alguns desses elementos, mostra composições menos “orquestradas” e, conseqüentemente, menos propensas ao exagero.

O interessante é que o álbum não é de uma reinvenção. Se é folk que é freak ou que é rock, é difícil de dizer. Fato é que esse é o som que a banda encontrou e desenvolveu ao longo de sua carreira, sonoridade acústica repleta de sopros e cordas que caberiam bem numa orquestra. A verdade é que esse é o tal do “disco maduro” do Grizzly Bear. Deixando um pouco da melancolia que, por bastante tempo, fazia parte de seu charme, os rapazes resolveram se alegrar um pouco e arredondar as pontas. É até irônico que uma das chamadas “pontas” tenha sido o foco da atenção de Droste: no blog da banda, o cantor demonstrou decepção pelo vazamento de um “Veckatimest” de má qualidade sonora. Quem ouve “Horn Of Plenty” se encanta exatamente pela estética do que é um pouco improvisado, os sons “mal gravados” e as “imperfeições” de certos barulhos, de certos acordes. A verdade é que a produção desse último e tão esperado disco está muito bem feita, amarradíssima. O que poderia, em tese, trabalhar tanto a favor quanto contra a qualidade do disco: o álbum poderia facilmente ter saído calculado, frio. Mas a atenção aos detalhes só mostra o quão orgânico e espontâneo ele é, tão fluente quanto os coros que o acompanham.

O caso aqui não é só de geografia e som, no entanto. De letras abertas, muitas frases tomam um sentido que têm a beleza reforçada justamente pela ironia . O “eu não posso sair do que eu tenho com você” nunca soou tão doce e esperançoso quanto em “All We Ask”, canção vagarosa que começa tímida e vai se encorpando, se expandindo. Decepção e desprezo são motivo de catarse em “While You Wait For The Others”, que culmina em entrelaçamentos vocais e o lamento vigoroso da guitarra de Daniel Rossen. O sentido é aberto o suficiente, ainda assim, com a justaposição de imagens característica das letras da banda.

Independente de qual tenha sido o itinerário que feito para chegar ao disco, ele é – até segundo aviso – a obra-prima da banda. E vale muita a pena visitá-lo.

[“Veckatimest”, Grizzly Bear. 13 faixas com produção de Chris Taylor. Lançado pela Warp em maio de 2009]

[rating:4.5]

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