Entrevista: Pullovers

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Em inglês a expressão “pull over” quer dizer estacionar, encostar. Coisa que os paulistanos do Pullovers não fizeram ao longo desses 10 anos de vida. Nascida em 1999, dentro da cabeça de Luiz Venâncio (único remanescente da formação original), a banda já começou com o pé direito gravando a seu primeiro disco com Adriano Cintra, o homem do CSS. “Pullovers Can’t Play Covers” trazia um Pullovers com claras influências de grupos como Pavement, referências que os seguiram até o terceiro disco, “Carniça” (2005), gravado com a modelo Geanine Marques.

No recém-lançado quarto álbum, “Tudo O Que Eu Sempre Sonhei”, Luiz resolveu deixar o inglês de lado e passou a escrever em português. Mesmo ainda sendo conhecida como a banda mais fofa do mundo indie brasileiro, agora com letras que podem ser facilmente entendidas por qualquer um, os Pullovers parecem ter ficado ainda mais.
Algumas canções chegam ao pop “extremo” com letras grudentas, como “O amor verdadeiro não tem vista para o mar”. Já outras podem soar como um discurso bem elaborado, caso de “Tudo Que Eu Sempre Sonhei”  ou “Marcelo ou Eu Traí o Rock”.

Hoje, além de Luiz Venâncio, o Pullovers é Rodrigo Lorenzetti nos teclados, Bruno Serroni no baixo, Angelo Lorenzetti na viola, Gustavo Beber na bateria e Habacuque Lima, que também faz parte do Ludov, na guitarra. Conversamos com o Luiz Venâncio sobre o novo disco, a vida de um independente e alguns outros assuntos.

[MP3] Pullovers – Tudo O Que Eu Sempre Sonhei

Bloody Pop: O quarto álbum de vocês, “Tudo O Que Eu Sempre Sonhei” é o primeiro com composições em português. Em entrevista ao Trama Virtual, você disse que “não seria honesto” continuar compondo em inglês. Você pode explicar melhor para gente o porquê?

Luiz Venâncio: Porque simplesmente acabou a vontade de compor em inglês. Pluft, acabou.

BP: Um amigo meu confidenciou uma vez ser mais fácil escrever músicas em inglês do que em português. Já que você experimentou os dois lados, qual foi mais simples?

Luiz: Em inglês, sem dúvida. Não é o meu idioma, eu não preciso me preocupar com “o que vou dizer lá em casa”. Ou seja: eu fico de alguma maneira menos responsável por aquilo que digo, saca?

BP: A tecla mais batida com este quarto álbum é o fato de você não ter mais vergonha de “imitar o Chico Buarque”. Neste disco o Pullovers ganhou mais influências brasileiras?

Luiz: Claro, várias. Não há muito como fazer uma lista… Se não das minhas, muito menos das dos outros músicos (aí a lista ficaria quilométrica). Mas é claro que isso aconteceu.

BP: Suas letras têm uma carga muito autobiográfica. Por um acaso você já ficou na ponte área São Paulo-Rio por alguma namorada?

Luiz: Sim! Mais de uma vez, na verdade. Não aérea, rodoviária, por falta de grana. Tipo “Amor na Via Dutra”. Por isso as relações amorosas acabaram de algum jeito se transferindo para o amor pela cidade. Pro pacato paulistano, acostumado à racionalidade, ao clima ameno, à discrição… O Rio de Janeiro é sempre um lugar onde o imprevisível (pro bem e pro mal) acontece.

BP: Como é o processo de composição de vocês? Sei que muitas músicas são escritas por você, mas temos mais compositores na banda? E quando alguém chega com uma letra, todos dão o seu pitaco para compor a melodia?

Luiz: Na verdade, o processo de composição em geral parte das músicas pra depois chegar à letra. São raras as exceções, como em “Lição de Casa”, que está no disco. Esta eu fiz a letra e depois musiquei. Mas geralmente é o contrário: alguém (eu ou outro – o Rodrigo, tecladista, por exemplo) faz a música e depois eu coloco a letra.

BP: Com o passar do tempo, as músicas do Pullovers foram ficando mais tranquilas. Li por ali que é até por você ter ficado mais velho. Neste quarto disco, as músicas ganharam ares mais MPB, lembrando bandas como Los Hermanos. Vocês já foram taxados de cópia (ou cria) do grupo carioca? Ou isso é apenas coisa de quem não conhece o trabalho de vocês?

Luiz : Não condeno quem diz que “parece Los Hermanos”. Afinal os caras se tornaram a principal referência histórica deste tipo de música; nem tanto pra nós, que temos muitas referências em comum com eles e obviamente os admiramos, mas principalmente pros ouvintes. Então às vezes aparece essa opinião a partir de uma primeira impressão. O que acontece sempre é que uma audição um pouco mais cuidadosa esclarece as enormes diferenças. Em primeiro lugar, no tipo de poesia. De uma certa forma, temos um pouco a linguagem dura (com momentos de lirismo desenfreado que explode parecendo quase não ter lugar) da nossa cidade, São Paulo. Poeticamente e musicalmente também. Eles, obviamente, têm uma delicadeza, suavidade e jeito de dizer as coisas próprios de quem vive o Rio (e NO Rio). Sei lá, é meio tosco-simplista essa divisão geográfica-cultural, mas pode ser esclarecedora.

BP: Em entrevista para a Mondo 77, você diz que seria estranho continuar fazendo o mesmo trabalho do começo de carreira. O que é uma coisa obvia, já que todos têm que crescer um dia. Mas como se deu o seu amadurecimento musical? O que você deixou de escutar? O que você descobriu?

Luiz: Ah, deixei simplesmente de escutar o que escutava há 10 anos atrás, o que como você disse é totalmente normal. Como diria a vovó, quem fica parado é poste. O que eu descobri: outra obviedade: os… CLÁSSICOS. Atenção para o momento panfletário-professoral: juventude, leia os clássicos! Ouça os clássicos! Assista os clássicos! Na literatura, no cinema, no teatro e, claro, na música. O que não necessariamente significa ouvir Mozart ou Schubert. O Maestro Jobim é um clássico também.

BP: Agora, sobre o futebol. De onde surgiu essa paixão?

Luiz: Ah, agora você tá falando do que vale a pena. Senta aí e abre uma cerveja. Então, veja você: do futebol veio meu grande feito esportivo: fui, jogando de goleiro, vice-campeão paulista na categoria “Fraldinha” (8 anos). Vice. Quase um Rubinho Barrichello dos gramados. Queria inclusive deixar aqui a minha homenagem ao Rubinho. Gostar do Rubinho é encarar a vida como uma epopéia, saca? No caso, protagonizada por um anti-herói. É como gostar do Corinthians. Veja o nome do time: vem de Conríntios! É grego, é bíblico também. É a pura tragédia grega! O corintiano é a tradução máxima do paulistano: força, sofrimento, uma doçura desconcertada e, às vezes (mas só às vezes), a redenção e a vitória no final.

BP: Além do futebol, outra influência clara nas músicas deste disco é a cidade de São Paulo. Você viveu a vida toda lá? Ou escreveu as músicas em algum momento de saudade?

Luiz: Sempre vivi em São Paulo. Acho que isso fica claro no que eu escrevo… Nos meus S, nos meus R, em tudo o que eu falo enfim… Até nas minhas neuroses. Somos 4 paulistanos típicos na banda. As duas exceções são Habacuque, brasiliense, e Gustavo, de Barra Bonita (interior de São Paulo).

BP: Quem é a Marinês da música de mesmo nome?

Luiz: São todas as boas moças que eu vejo no metrô saindo da Zona Leste pra ir trabalhar no centro ou na Paulista, de scarpin, terninho, às vezes vestidas mais casualmente também… Vou inverter o que disse o Caetano: elegância indiscreta em vez de deselegância discreta. Lindas, acho todas muito doces e sonho que todas sejam felizes e encontrem seus “manos”, tão doces quanto elas. Aliás, precisamos compor a versão masculina também. Quem sabe o namorado da Marinês não é um típico corintiano? Que se dá bem no final?

BP: O Pullovers não é uma grande banda no âmbito nacional, mas no meio alternativo/independente, vocês são só elogios. Como é estar tanto tempo no mercado e não estourar? E como se manter tanto tempo no mercado?

Luiz: Não sei… É difícil responder “como é ser assim”. Aprendi uma palavra nova outro dia: “tautológico”. Então eu digo: ser assim é… ser assim.

BP: Em entrevistas com outras bandas, pelo menos as mais antigas, sempre ouvimos que o meio independente se profissionalizou. Conta como você vê este novo mercado. Uma banda independente consegue hoje viver só de música ou não?

Luiz: Claro que não. Quase ninguém consegue, mesmo quem é muito mais conhecido do que nós.

BP: A pergunta que não quer calar e que nós sempre fazemos aos entrevistados. O CD é independente, mas está saindo pelo selo Pisces Records e está para download no perfil de vocês no Trama Virtual. Por que a escolha de um selo? O CD também era sua versão física?

Luiz : Ah, escolhemos o selo porque ele nos fez uma oferta para lançarmos o CD fisicamente e topamos, simples. Mas acho que realmente hoje em dia talvez seja até mais importante do que o cd “físico” as faixas estarem na Internet.

BP: Quanto tempo durou a gestação de “Tudo O Que Eu Sempre Sonhei”?

Luiz: O disco ou a canção? A canção foi escrita em 1 ou 2 dias. Já o disco demorou bastante, não sei nem precisar o quanto, mais por questões de grana e operacionais mesmo (mudanças na banda, etc).

BP: O Mombojó participou recentemente do “10 horas no estúdio”, experiência que vocês também viveram. No meio das entrevistas, o tecladista Chiquinho disse que não queria nem ouvir a música, com medo de que ficasse alguma coisa errada. Já ouvi Lenine dizendo a mesma coisa. Há mesmo essa preocupação com a perfeição de um álbum? Você já quis mudar alguma música depois do CD lançado? Como foi com este disco?

Luiz: Já quis mudar depois de lançar o CD, claro. Na real, eu adoraria conseguir me preocupar menos com a perfeição. Queima-se muito a mufa, às vezes sem resultado prático, até pelo contrário: às vezes tentar ser “redondo” demais engessa um trabalho. Tivemos muito essa preocupação em “Tudo o que eu sempre sonhei”, talvez por ser o primeiro álbum em português. É provável que as coisas apareçam mais “soltas” nos próximos

BP: Uma pessoa que nunca ouviu o Pullovers deve começar por qual disco?

Luiz: Olha, eu sinceramente gostaria que começasse pelo último. E se não for possível, que não deixe de escutá-lo pra ver o que temos nos tornado.

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3 respostas para Entrevista: Pullovers

  1. Dary Jr. disse:

    “Tudo que eu sempre sonhei”, do Pullovers, é a canção do ano no disco do ano, embora os novos álbuns das bandas curitibanas Anacrônica e Poléxia também façam bonito.

  2. Zelenski disse:

    “Tudo que eu sempre sonhrei” é um ótimo álbum.

    A entrevista ficou foda, com pontos bacanas sobre música indie, como o fato de divulgar as músicas pela net e de não se conseguir viver de música hoje. É interessante isso, pq as músicas parecem que ficam mais sinceras. São músicas feitas por quem realmente quer fazer música, e não “estourar” no mercado.

    Abraçøs!

  3. Matheus Pinheiro disse:

    Grande disco, grande entrevista. Parabéns.

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