Entrevista: Wado

wado01

Foto (Maira Villela) - Divulgação (do disco anterior)

Wado veio no início de junho a Brasília fazer dois shows na capital, além de outro em Goiânia. Prestes a lançar seu quinto disco, “Atlântico Negro“, o “catarinense de nascimento e alagoano de coração”, como diz seu site, fala ao Bloody Pop sobre a sonoridade que o novo disco adquiriu, além de outros temas.

Com forte influência no afoxé, “Atlântico Negro” tem produção dividida entre Kassin e Beto Machado, participações de vários músicos e foi financiado pelo Projeto Pixinguinha, do Ministério da Cultura. Na entrevista, Wado explica o conceito que permeia o novo disco, como será o seu lançamento, mostra sua visão da atual cena independente na música brasileira e ainda fala um pouco sobre o preconceito que alguns gêneros musicais sofrem no país.

por Matheus Vinhal

Bloody Pop: Em que estágio está o disco novo? Como está sendo o processo de gravação?

Wado: A captação foi feita em Maceió e o disco foi para a fábrica hoje [04 de junho]. Vão 37 dias até o disco estar pronto, até ele voltar. O disco está bem mais orgânico que o anterior e tem participação do Curumin, do Rômulo [Fróes], do João Paulo – do Mopho, uma banda bem boa lá de Maceió. O pianista [Dinho Zampier] que toca com a gente toca no Mopho também. E o João tocou guitarra em duas faixas e cantou em quatro faixas do disco. Em Maceió, a gente tem quatro shows no estado para lançar o disco, pelo Projeto Pixinguinha, e ele vai fazer com a gente. Estamos bem felizes de ter a participação dele. O João tem um timbre de voz foda, toca bem pra caralho. E eles estão gravando em Maceió com a formação original agora, o Mopho.

Do nosso disco, a mixagem foi feita metade pelo Kassin, no Rio, no Monaural. E ficou bem legal, o disco tem muito afoxé, cara. O nome do disco é “Atlântico Negro“, que é um conceito de um cara chamado Paul Gilroy e trata dessa interrelação entre Américas e África. E eu escrevi para o Projeto Pixinguinha em cima disso aí. E ganhamos. E a outra metade [da mixagem do disco] foi feita pelo Beto Machado, em São Paulo. Essa eu acompanhei, lá. Beto Machado já fez Jorge Ben, Ultramen, fez Los Hermanos (primeiro disco). E foi masterizado pelo Sérgio Soffiatti, que masterizou o anterior nosso [“Terceiro Mundo Festivo”], também. Está bem bonito, o disco.

BP: Você disse que o disco está mais orgânico, mas, em que sentido, está menos eletrônico, por exemplo?

Wado: Está menos eletrônico, as baterias estão muito salão, assim, com muita ambiência. Eu toquei muito violão de nylon e guitarra, nesse disco. O disco anterior não tem quase nada de guitarra. E o João tocou também guitarra, em duas faixas. O João tocou um samba e um afoxé. Ele é um cara notoriamente do psicodélico, a gente meio que “prostituiu” o João em algumas coisas, que ficaram muito bonitas.

BP: E previsão de lançamento? Você tem alguma?

Wado: Tenho, a gente deve lançar o disco por volta do dia 15 de julho, no mesmo esquema do anterior: SMD [Semi Metalic Disc], duas mil cópias – a gente está fazendo para vender em show – e botar o disco na internet para download gratuito, no site.

BP: Como foi o processo de decisão para participar no Projeto Pixinguinha?

Wado: A gente que é artista independente tem que ficar ligado nos editais. Lógico que a gente tem uma vida, trabalha com outras coisas. Eu tenho outras coisas para fazer também, mas sempre que dá eu tento fazer minha inscrição nos editais, tento participar.

BP: E você achou o processo de gravação pelo projeto mais tranquilo do que os outros quatro anteriores?

Wado: Com certeza, porque tem dinheiro para fazer (risos). Dá para pagar todo mundo direitinho, porque a gente sempre trabalha com a corda no pescoço, pagando mal as pessoas ou pensando que você vai compensar o cara num show. Porque não tem como um artista independente gravar um disco pagando como se deve pagar as pessoas. Nessa circunstância a gente pôde pagar as pessoas de uma forma correta. E o [Projeto] Pixinguinha é quase meu pai, né. É a terceira vez que eu participo do Projeto Pixinguinha. Numa vez eu fiz o Sul e o Sudeste rodando nas caravanas tradicionais. No Ano do Brasil na França, das doze caravanas, quatro foram selecionadas para ir para a França. A minha, por sorte, estava numa dessas aí. E a terceira vez, agora, nesse formato diferente. O Pixinguinha deve dar uma adequada nos formatos.

BP: Mas esse é o primeiro disco gravado no projeto, né?

Wado: É. Eu já tive disco por gravadora, com um orçamento bem menor que esse, mas com uma infraestrutura legal, também, que foi o caso da “Farsa do Samba Nublado”, que é um disco bem acabado também. A gente teve a oportunidade de trabalhar em um estúdio legal.

BP: É curioso você ter logo falado qual o conceito que te chamou atenção para o novo disco, “Atlântico Negro”, porque todos os seus discos são bem amarrados conceitualmente.

Wado: É engraçado esse negócio de você conceituar. Acho que eu quero fazer, um dia, um disco mais free.

BP: O que você acaba percebendo é que, na verdade, o disco tem um conceito que engloba todo o disco, mas algumas músicas são mais soltas.

Wado: É, porque é legal que seja assim, porque senão fica muito sisudo, né. Fica muito dever de casa. Eu achei esse disco bem bonito, nesse sentido. Eu tomei uns cuidados de ter muita voz que não seja só a minha voz, no refrão. Ele está bem palatável, apesar de que eu acho que talvez a gente leve umas porradas nesse disco, pelo preconceito que as pessoas têm com o afoxé, pela proximidade que tem com axé. A gente ficou bem próximo do axé nesse novo disco. São músicas que eu acho que a Ivete Sangalo gravaria. Assim, de onze ela gravaria oito (risos). Não estou dizendo que elas tenham qualidade para ela gravar, mas são do formato em que aquilo cabe, tá entendendo? Gostaria muito que ela gravasse uma, né (risos).

BP: Desde o primeiro disco você trabalha com essa noção de arte periférica, de com o seu trabalho questionar um pouco isso. E você tocou na questão do preconceito. Você acha que existe preconceito com alguns tipos de música brasileira ainda hoje?

Wado: Eu acho, e tenho abordado isso nos últimos trabalhos.

BP: Mas, com o funk, por exemplo, você não acha que houve alguma mudança de alguns anos para cá, que o funk já é mais aceito do que antes? Você vê algum progresso ou um processo de mudança ao longo desse tempo, dentro do seu trabalho até?

Wado: Eu acho que tem, sim. Eu não tento fazer tese, eu não busco esse conceito antes de fazer. Quando eu tenho um amontoado de canções, eu começo a pensar naquilo ali e ver o que é. Eu não parto do conceito para o disco, o conceito vem meio que em consequência do amontoado de canções que eu tenho na época. E eu acho que seria mais fácil até, para mim, se eu ficasse mais focado em uma coisa só, e que não me arriscasse em coisas tão polêmicas. Por exemplo, os funks que eu gravei, eles não são cínicos. São o que eu acho foda mesmo, eu acho o instrumental do funk foda. Quando eu estou numa boate e toca funk, eu acho divertido pra caralho. Os funks que eu gravo não são jocosos, são funks – a canção bonita, ela por acaso é funk. A mesma coisa com o afoxé, agora. Não é paródia.

E esse movimento do funk, assim, eu acho muito interessante. O radicalismo que a gente teve do miami bass para cá, que se transformou em uma coisa brasileira mesmo, essa radicalização. Aí você pega o Will.I.Am, que é número um do mainstream mundial, e você vai ver a música de trabalho dele agora, que toca no rádio, “Boom Boom Pow“: é descaradamente funk carioca, sabe? E é eles também, é um pouco o miami bass também, mas é mais o funk carioca, é mais o vazio nosso, agora. E tem toda uma galera aí que está trabalhando no mundo com o funk.

Sobre o conceito do disco, o do Paul Gilroy, o Hermano Vianna tem uns textos sobre isso na internet que são legais. O que o Paul Gilroy defende é que não existe uma raiz original, ele não gosta de trabalhar com o conceito de raiz, de pureza. Ele trabalha com conceitos que são rizomáticos. O que é o rizoma? O rizoma é como uma grama, são muitos focos trocando informação constantemente. Nem a música feita no Brasil foi a mesma depois que começou esse diálogo no navio negreiro, nem a música da África foi a mesma, porque houve um retorno, essa informação continuou sendo trocada. A capoeira da Bahia foi para a África e os escravos que voltaram para a África levaram informação brasileira para lá, também. E houve uma pequena parcela de negros que voltaram para a África. Esse dado é interessante, porque ainda tem muito essa coisa dos gêneros subjugados pelas pessoas, como o afoxé. Uma coisa pejorativa, que tudo bem se você não gostar, mas é um fato que existem músicas muito bonitas ali e que tem uma história muito interessante de democracia dos compositores dos morros de Salvador. Você pega as músicas de todas as fases do axé e tem músicas lindas de amor e tem músicas políticas, e sempre teve. Mesmo o “Xibom bombom” é uma letra política pra caralho, a “cadeia hereditária, essa situação precária”. É um negócio, sabe, muito legal. Eu acho muito interessante. E o início do axé eu acho do caralho, a fase da Margareth Menezes, quando era da Banda Reflexo ainda. Eram quase aulas de história, ali. Tinha aquelas coisas egípcias, de Madagascar, fala dos faraós, um negócio maluco para uma canção pop.

E ao mesmo tempo vejo uns movimentos interessantes na música brasileira. Eu acho que Brasília, por exemplo, é um dos lugares mais interessados em música brasileira, de interesse do Brasil pelo Brasil. Do que a gente tem rodado tocando, acho que aqui está muito forte isso. Recife sempre foi. Belém tem um negócio de consumir o Brasil, de ter uma paixão do Brasil pelo Brasil. Você tem nos centros um certo cansaço e uma vontade natural, do mundo ficando pequeno, desses centros serem periferia do mundo e consumir o que o subúrbio dos EUA consome, a ponto de São Paulo se extremar e quase por acaso a gente fala português. É muito nicho o que é “música brasileira” dentro do circuitão, ali.

E tem, por exemplo, os discos que o Caetano [Veloso] fazia, que era muito essa coisa do afoxé de uma forma mais sofisticada, mais experimental. Quer dizer, tinha os quatro percussionistas, ali, quebrando muito, dentro da obra ampla do Caetano. E tem o movimento dele indo para o rock ‘n roll, agora, e o movimento do [Marcelo] Camelo, que é, digamos assim, um dos principais expoentes da nova música, caminhando para a MPB. Então eu acho que tem uma busca de meio termo, assim, até de um cansaço do rock que a gente viveu e que está até passando e tem entrado essa coisa black do Timbaland, do Pharrell [Williams], do Will.I.Am, do clap bem vaziozão, que a gente usou muito nesse disco anterior, o “Terceiro Mundo Festivo”. A “Reforma Agrária do Ar” tem os claps e os bumbos que estão na Jovem Pan, mas que eu acho legal, aquilo ali. Os caras sempre foram muito bons de estética, né.

BP: Você falou da vontade de São Paulo, desses centros do Brasil, de ser periferia do mundo. Parece que você pensa bastante nesses termos de centro e periferia. De uns tempos para cá, nos últimos dez anos se for para dar uma data, algumas cenas musicais periféricas começaram a emergir. A gente pode citar Cuiabá, por exemplo, falamos de Belém, você, que é de Maceió. Como você vê isso?

Wado: É, o que acontece em Belém é muito legal. O norte do Brasil tem muitas coisas interessantes. Tem aquelas coisas da guitarrada, das radiolas, que é um negócio malucaço. A cena cearense que migrou para São Paulo é muito consistente, muito boa. Tanto que tem se firmado como os músicos que acompanham muitos dos artistas. O Catatau, o Karine Alexandrino, e toda a turma do Catatau, os instrumentistas que acompanham o Otto, que já acompanharam a Wanessa da Matta. Tem muitas coisas interessantes ali. O Rio Grande do Sul sempre foi um pólo roqueiro muito forte, com coisas muito interessantes, mais psicodélicas, mais voltadas para a referência do Mopho. O Mopho sempre teve uma ligação muito forte com o Rio Grande do Sul, por causa dessa cena psicodélica. Eu vejo coisas interessantes acontecendo. A turma do +2 é uma turma muito legal também, os caras são uns criadores muito interessantes, sempre muito conectados com o que está rolando, o Kassin, o Domenico, o Moreno. Gosto muito do Rômulo Fróes, do Lucas Santanna, do MoMo, o Fábio Góes é um cara foda. Muita coisa boa.

BP: Quando se fala de centro e periferia, nós acabamos voltando à questão do preconceito.

Wado: Claro.

BP: Você vê a música como lugar de embate social, de encontro entre um centro e uma periferia?

Wado: Assim, em 2001 eu lancei o “Manifesto da Arte Periférica”, que era um momento muito interessante, ali, que era a quebra disso. As novas tecnologias estavam deixando que a gente produzisse coisas e não precisava mais fazer lá, em São Paulo. Um monte de gente fazendo e com qualidade legal, e começou a se fazer cada vez mais. Nesse disco eu tratava de um país de proporções continentais, onde nesse continente você tem dois estados que emitem para 25 estados. E isso era injusto, eu achava. Acho que ainda é, de certa forma é isso que acontece, mas eu acho que está algo muito mais de nicho, agora. Eu estou mais leve com as bandeiras que eu carrego (risos). Acho que as bandeiras grudam na gente, depois elas vão, voltam. São os temas que a gente gosta de tratar.

Sobre Livio Vilela

Happiness Engineer at Automattic
Esse post foi publicado em Sem categoria. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Entrevista: Wado

  1. Pingback: [Álbum] “Atlântico Negro”, Wado « INMWT

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s