Disco: "Hands", Little Boots

littehands

Quem descobrisse a Little Boots por seus vídeos na internet talvez não achasse muita graça: uma loirinha de voz miúda fazendo covers da Cindy Lauper e do Hot Chip em algum quarto perdido, tocando nada mais que um teclado e ocasionalmente mexendo com um sintetizador estranho e quadrado. O tipo de coisa amadora, enfim, que se encontra aos montes com quatro ou cinco cliques no Youtube.

as pra quem a ouve pela primeira vez nos 7 minutos hipnotizantes de “Stuck On Repeat”, primeiro single da artista, a história é outra: o loop eletrônico, os sinos de natal (!) e a tal da voz minúscula de Victoria Hesketh não pareciam o trabalho de uma anônima que tinha habilidade musical como qualquer outra e uma voz passável – era a canção sólida de uma diva instantânea, como não deixou de propagandear a imprensa no ano passado. Em pouco tempo a garota se tornou a promessa de todo o mundo (inclusive do Bloody Pop), e seu álbum de estréia, “Hands”, facilmente se encaixava na categoria dos mais esperados de 2009. O que era absolutamente justificável: o single era excelente (um dos melhores de 2008, na opinião de quem escreve) e a produção espertíssima, exata.

Nada mais lógico, portanto, que quem ouça “Hands” pela primeira vez esteja, muito provavelmente, cheio de expectativas. É a tal da hype, para o bem e para o mal.

A primeira impressão é a de que talvez o álbum não seja uma decepção. “New in Town” abre o disco com sintetizadores grudentos e a temática tipicamente pop de garota-oferece-mundo-de-diversão-para-ouvinte-indefinido, o tipo de coisa que não é exatamente lírica (ou terrivelmente inteligente) na construção, mas que entrega o que promete, uma canção descontraída e divertida. Na altura da segunda faixa, “Earthquake”, no entanto, a esperança de que a promessa seja cumprida já se abala. Nos primeiros segundos já peca pelo excesso de informação sonora: uma entrada estridente demais desemboca num baixo brincalhão que só não é mais leve por um chiado desnecessário. Um tropeço menor, mas o primeiro do disco.

Aí chegamos (ironicamente) ao primeiro problema: “Stuck on Repeat”. Com a mixagem errada – destacando mais sua voz que a repetição estilo Kylie Minogue que era o cerne da original – e 7 minutos de meandros deliciosos reduzidos a 3 minutos e meio, a melhor canção da artista se torna pífia no LP. Parece até que é prelúdio: a partir daí, a maioria das canções envereda por um pop exagerado, de vez em quando cheio de si. “Click” tenta ser mais sensual do que realmente é, “Ghost” se contenta em ser uma marcha esquecível e “Remedy” só não erra feio por pouco: o refrão fica perigosamente perto do tipo de coisa que grupos de dance europeu de quinta categoria compõem fácil, fácil (leia-se: Cascada).

Ainda assim, alguma coisa se salva. “Hearts Collide” é uma balada sombria e sutil, enquanto “Mathematics” se sustenta por um teclado barato e um refrão que acerta em cheio: “You’ll see nothing can divide just a heart plus a heart” é a sentença, dada entre uma batida discreta e o timbre sensual da artista. E há Meddle, é claro, a única faixa que se equipara à genialidade que lançou a cantora ao estrelato, eletropop nervoso com direito a um coro que evoca canto gregoriano.

Pra ser o que esperavam dela, Victoria não precisava de muita coisa. Nem originalidade seria necessário, o pop atual é basicamente sustentado por reinvenções e reciclagens muito aptas e pouco revolucionárias. Ninguém ouve La Roux, Robyn, ou Annie na expectativa de ter uma percepção ousada da música como um todo, mas o mínimo que se espera é um som grudento que (talvez) não fale de nada impressionante. E é esse aspecto que aproxima tanto o pop do ouvinte: a despretensão, a descontração, principalmente quando não cai na estupidez ou na simples repetição. E é exatamente esse aspecto que falta em muitas músicas do Hands, que acaba quase todo no esquecimento e na promessa.

[“Hands”, Little Boots. 12 faixas produzidas por Greg Kurstin, Joe Goddard, RedOne, Jas Shaw, Fred Ball, Pascal Gabriel, Kid Gloves, Semothy Jones e Richard “Biff” Stannard. Lançado pela 679 Records em junho de 2009]

[rating: 3/5]

Sobre Livio Vilela

Happiness Engineer at Automattic
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Uma resposta para Disco: "Hands", Little Boots

  1. A crítica aqui foi feita levando em consideração, principalmente, a qualidade musical do “Hands”. No meu artigo sobre a Little Boots, minha intenção é falar dela como intérprete. Já estava encantada quando ouvi o álbum, nem levei muito em conta composições próprias ou efeitos sonoros.
    Não me atrevo a fazer crítica musical querendo ser levada a sério, hehe. Por isso falo muito mais da MENINA que canta do que da CANTORA que seria capaz de fazer um trabalho muito melhor, sabe?
    A Little Boots está na minha categoria de “amadoras com muito talento”, como a própria Mallu Magalhães. Por causa do talento, aos poucos, elas deixam a categoria leiga. Do contrário, nunca as classificaria como “donas do meu coração”, tendo em vista artistas geniais como Soko ou Feist.
    Estou cansada de promessas do cenário musical. Eu quero garotas que me conquistem ao revirar os olhos. (:

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