Disco: "See Mystery Lights", YACHT

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Não é como se a DFA precisasse de mais credibilidade. Entre o estranho (Black Dice), o dançável (Hercules and Love Affair) e o estranhamente dançável (Juan McLean) – sem mencionar um catálogo que inclui o Rapture e o LCD Soundsystem (pra não citar só o nome do James Murphy) – ainda que nem tudo que saia de lá seja bom, a maioria dos grupos que a gravadora apadrinha é, no mínimo, interessante.

É menos que uma surpresa, então, o fato de que a estréia do Y.A.C.H.T. – dupla formada por Jonah Brechtolt (que de 2004 a 2007 também foi metade do The Blow) e Claire Evans – no selo seja um acerto. See Mystery Lights, marcado pela sonoridade que pode (ou não) se definir como um eletropop com pitadas do No Wave mais simpático aqui e ali (vide Cristina, não DNA ou Teenage Jesus & the Jerks) e um pezinho no rap nerd dos Talking Heads, é o tipo de disco que é feito por gente que se leva a sério na medida certa: ou seja, não muito.

Já dá pra perceber esse clima de ironia desde a primeira faixa. “Ring the Bell” dá o tom do disco com corais levemente assustadores, batidas tribais e muita manipulação de voz que, o mais longe possível da maciez de um Autotune, só causa estranhamento e dá a impressão de que o papo de “Iremos ao céu ou ao inferno” da letra é mais deboche que solenidade. Em “It’s Boring/You Can Live Anywhere You Want” a dupla monta um prelúdio de guitarras secas e vocais apressados pra depois demonstrar o quão pouco se importa com onde o ouvinte mora por cima de uma linha de baixo que figuraria fácil num Studio 54 mais eletrônico que o original, na onda do revival-tempos-da-brilhantina que esteve em alta ultimamente. “Psychic City” e “Summer Song”, previamente lançadas, continuam ótimas, no contexto do álbum: a primeira um pop esparso, saltitante e nonsense e a segunda na linha de uma disco music minimalista gravada num galpão cheio de eco.

O que não significa que o disco nunca perca a graça: Logo após “The Afterlife” (que também aborda a espiritualidade na mesma linha que “Ring the Bell”) vem “I’m In Love With a Ripper”. E é nesse ponto em que a linha entre ser brincalhão e ser bobo se mostra tênue. O problema não é nem o trocadilho. O problema é que a canção é cheia de elementos datados e, convenhamos, puramente bregas, sem conseguir encontrar um equilíbrio. Daí que a faixa fica num limbo entre sintetizadores kitsch e um final barroco que não se sustenta, erro que se recupera em seu Party Mix, mais sóbria e menos exagerada. “Don’t Fight the Darkness”, por sua vez, é audível, mas parece mais uma brincadeirinha masturbatória de manipulação sonora que uma faixa descontraída.

O ponto é que See Mistery Lights é uma piada gigantesca, no melhor sentido da coisa. Diverte em muitos momentos, tropeça em poucos e só erra mesmo em um.

[“See Mystery Lights”, Y.A.C.H.T. 11 faixas produzidas por Johna Brechtolt. Lançado pela DFA Records em agosto de 2009]

[rating: 4/5]

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