Disco: "Psychic Chasms", Neon Indian

neon

Alan Palomo nasceu em 1988. Não viveu, portanto, a maior parte da produção musical dos anos 80, só fazendo sentido o uso de “maior parte” em vez de “tudo” na hipótese muito generosa de que a trilha sonora dos passeios de carro que deve ter feito entre 1988 e 1990 tivesse “vingado” em sua memória infantil. Ele não viu, então, nada do synthpop acontecer, nada do início da música electro, cuja origem, a disco music, já era bem longínqua pro próprio ano zero do artista. O que permite concluir que sua música é um caso simples de “nostalgia emprestada dos anos 80 não lembrados”, citando a frase mais exata que já se falou sobre tanta banda que se vê por aí.

Não que isso seja necessariamente ruim, muito menos nesse caso. A sonoridade de “Psychic Chasms”, début do Neon Indian, caberia fácil num puteiro kitch e luxuoso dos anos oitenta cheio de neon que Palomo (ou eu, ou provavelmente você) não viu, na linha tênue entre o exagerado e o elegante, o atual e o datado. E é nesse limbo que o álbum mais tem êxito: no que ele imagina. O modo como a nossa geração, a dos vinte-e-poucos-anos-nos-anos-2000, ouve, por tabela, muito da produção de uma década que não foi nossa. Tudo que é verdade e mentira sobre a áurea que nos passaram tá lá: as guitarras exageradas, os sintetizadores intergaláticos, os ooooooohs e os aaaaaaaahs de uma voz masculina que só não passa de sexualmente tensa para ridícula por um triz.

A princípio, um traço que coloca o projeto num momento mais aqui e agora é, inclusive, uma moda: a lógica de chiados e estalos de interferência é semelhante à de boa parte da produção desse ano (vide Wavves, Smith Westerns, Washed Out e Beach Fossils), mas o ruído, aqui, é duplo. Tanto o da gravação lo-fi/DIY do LP quanto o que filtra a música de ontem para a geração de hoje – o som dos anos 90, que mesmo não sendo tão nossos, ficam mais próximos do nosso ouvido. As batidas antiquadamente futuristas de “6669 (I don’t know if you know)” estão lado a lado com vocais que são quase tão audíveis e emocionalmente ambíguos quanto em “Loveless”, aquele disco pequeno e nada significante do início da década passada. “Deadbeat Summer”, como a faixa de introdução do disco sugere, parece vir de uma estação AM perdida no espaço, (obviamente) ensolarada e um pouco pateta, em que “Terminally Chill” seria (e é) um hit certo.

Seria leviano se não fosse tão certo. Considerando que o noise no pop de hoje é bem mais escolha que falta de escolha (no sentido de que uma boa qualidade de gravação, hoje em dia, não é um absurdo, em termos financeiros), há quem diga que Palomo seja oportunista. Mas a impressão que se tem é que não se trata simplesmente de uma carona num gênero que está em alta, e sim de um modo de ressaltar e recontextualizar a melancolia, sorrateira e subterrânea, que por vezes perpassa o álbum. Pois se em alguns momentos o que prevalece são o ritmo e as batidas, como na ótima “Ephemeral Artery”, em outros, o foco é um sofrimento envolvido pelos mesmos elementos, mas não soterrados por eles, como é o caso de “Mind, Drips” e “Should Have Taken Acid With You”.

A verdade é que ouvir “Psychic Chasms” é meio que como, pra geração atual, ouvir “Blue Monday” pela primeira vez. Os sintetizadores, os corais gregorianos, a batida: tudo na faixa é, até segundo aviso, o epítome do brega, do tipo de coisa que, imaginamos, tocava na festa dos nossos pais, e não necessariamente no bom sentido. Mas de alguma forma tudo funciona. É que, por trás de todo o papo de décadas e tempos e modas e vogas, o fato que permanece e encerra a discussão é o seguinte: aquilo é música boa.

[“Psychic Chasms”, Neon Indian. 12 faixas. Lançado em outubro de 2009 pela Lefse Records].

[rating: 4.5/5]

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