Entrevista: Romulo Fróes

Quem chega nessa entrevista, provavelmente já conhece bem o quão lúcidas e acertadas são as opiniões de Romulo Fróes. Se não, é dever de casa ir ao Scream & Yell e ler o que possivelmente é o texto que melhor define o estado da música brasileira no início dessa segunda década do século XXI. Vá lá e depois volte aqui.

Feita no show que Romulo fez no Rio de Janeiro em novembro de 2009 – uma noite para poucos que contou com Kassin, Bubu e Domênico como banda-improviso, tirando até música na hora – essa entrevista não chega a ser tão expansiva quanto a do Marcelo e do Tiago, mas consegue acumular discussão, seja em relação a música brasileira hoje, quanto em relação a música de Romulo.

No papo, entre divagações sobre cachorros e as pequenas alegrias da internet, Romulo joga luz sobre o processo criativo de “No Chão Sem O Chão”o melhor disco nacional do ano passado – e do vindouro “Um Labirinto Em Cada Pé”, que na época da entrevista ainda era apenas uma idéia.

Romulo também falou bastante coisa interessante para o Fernando da Noize, que o entrevistou no show do Conexão Vivo, em BH.

Bloody Pop: Como você começou a compor. De onde vem sua relação com música?
Romulo Fróes: A minha relação com música e com a composição surgiu ao mesmo tempo. Quando eu aprendi meu primeiro acorde, corri para aprender o segundo e ali já compus uma canção. Isso eu tinha 18 anos. Desde o começo é a coisa da composição que é o mais importante para mim. Acho que isso até atrapalhou meu desenvolvimento como instrumentista. Eu não sou um grande músico, não sou um grande violonista. Eu me acho um cantor razoável, mas nada demais. O meu lance é a composição, sempre foi. Esse disco duplo é um pouco para dizer isso, para dizer que eu, o Nuno [Ramos] e o Clima [parceiros que escrevem as letras paras as músicas de Romulo], nós três temos muita intimidade com essa história de compor.

A minha coisa com música foi aprender a tocar violão, porque eu gostava de cantar e queria montar uma banda, essas coisas de adolescente, mas logo de cara eu não fui virar o guitarrista virtuoso, eu queria ser o cara que fazia as canções.

BP: O que você curtia nessa época?
Romulo: Ouvia muito rock n’ roll mesmo. Muito rock inglês dos anos 80, que eu adoro, coisas do The Cure, dos Smiths, Joy Division, toda essa coisa tristonha inglesa. E gostava muito de uma MPB que hoje em dia eu não gosto tanto, que é uma MPB mais hippie. Nessa época eu ainda não tinha sacado a MPB clássica, digamos assim. Clássica no sentido no sentido dos anos setenta. Por que a música brasileira clássica, eu conhecia muito, apesar de não ter um envolvimento nessa época. Eu conhecia tudo por causa do meu pai, que é um sujeito que ouve música pra caramba e só ouve música pré-bossa nova. Então essa coisa só foi bater em mim muito mais tarde, mas quando bateu, eu saquei que eu já tinha ouvido tudo. Já tinha ouvido Orlando Silva, já tinha ouvido Aracy de Almeida, aquilo já estava no meu DNA.

O que entrou por fora foi exatamente a década de 70, exatamente são as coisas que mais me influenciam hoje, o Gil, o Caetano, o Melodia, o Macalé, que acabaram vindo depois, de um outro jeito, um pouco por conta do rock.

BP: No release do disco você fala que o disco surgiu de uma crise com sua antiga banda. Como foi essa crise e como ela influenciou nessas composições que surgiram depois disso?
Romulo: Essa crise tem a ver muito mais dos caras comigo, do que comigo com os caras. Na real, eu lancei um primeiro disco de samba, samba-samba, samba triste, esse samba que me agrada, que é o Nelson do Cavaquinho, Paulinho da Viola. No segundo, eu comecei a querer tirar esse ranço, porque começaram a me associar muito com uma coisa do samba de raiz, como se eu fosse representar o “samba de São Paulo” e definitivamente isso não diz respeito a mim. Não sou defensor de nada. Se eu sou defensor de alguma coisa, é da música brasileira.

Mas o fato é que esses caras que estavam tocando comigo eram um pessoal do choro, do samba de São Paulo, que começaram a não agüentar as invenções que eu fui botando no som. Eu comecei a inventar moda, comecei a misturar guitarra, colocar bateria e os caras meio que não deram muito conta. E não deram muito conta especialmente de um circuito que eu faço parte, que é essa coisa dos bares. Os caras não gostaram muito dos lugares onde eu tocava. Uma hora eles me mandaram embora, deram com o pé na minha bunda.

BP: Como isso influenciou o disco?
Romulo: Aí então eu fiquei sem banda e acelerei um processo, que já estava acontecendo, que era de mudar o som mesmo. Pegar uma coisa mais roqueira, mais dos anos 70. Como eu tive que trocar de banda, eu passei de um regional de choro, com sete cordas, não-sei-o-que-não-sei-o-que-mais, para um power trio. Isso foi muito brusco, muito brusco. As canções ainda não eram pensadas para esse tipo de som. Elas tinham nascido de um outro momento, então, quando os caras começaram a colocar som nas minhas músicas, foi muito chocante para mim. Ao mesmo tempo, foi muito rico, né? Eu comecei a compor muito.

No fim, eu ia chegar nesse lugar onde eu estou hoje, só achei que eu iria chegar com parte daqueles músicos, achei que eles iriam dar conta desse novo lugar. Especialmente o Zé Barbeiro, que é um ídolo, um monstro para mim. O maior sete-cordas do Brasil. Eu achei que ele fosse capaz de experimentar coisas que ele acabou sendo. Não que ele seja um tradicionalista, não é isso. Ele é tradicionalista na cabeça dele, mas o som dele que está registrado nos meus dois discos, é o som de alguém muito inventivo. Mas é uma coisa mais de intuição do que de programação e eu quis meio que programar uma coisa que no fim não deu certo. Eu botei ele junto com o Lanny Gordin e foi lindo! Eu tenho registro disso em algum lugar, acho que num show no SESC Pompéia. Era o “louquinho do choro” com o “louquinho da MPB”, era lindo de morrer, mas os caras não deram conta.

BP: Aquelas músicas do “Cão” com o Lanny Gordin são realmente sensacionais…
Romulo: Exatamente, aquela música que é só o Zé, o Lanny e o Fabinho [Fábio Sá] no baixo, “Sol Sem Calor”… Eu acho lindo aquilo. Mas aquele negócio não foi pra frente, eles não deram conta. Quem deu conta foi a galera da minha geração, da minha turma, o Curumin, o Guilherme Held [guitarrista]. O Fabinho já estava lá, daí quando juntou esse trio, eu pensei “beleza, é um povo que conhece música brasileira, mas é um povo que é disposto a querer inventar, a querer levar pra frente essa história”.

BP: O disco, ou melhor, os discos têm três títulos diferentes – “No Chão Sem O Chão”, “Saiba Ficar Quieto” e “Cala A Boca Já Morreu”. Como foi a escolha de cada um e como eles se ligam ao resto da obra?
Romulo: O disco sempre surge de uma maneira estranha. Por exemplo, eu estou louco para gravar um disco em janeiro [a entrevista foi feita em novembro de 2009], eu já estou pensando nisso. Eu começo a soltar isso no ar para ver se pega e volta para mim, sabe?

Esse disco [“No Chão Sem O Chão”] começou por um fato simples: eu tinha mudado de banda, eu estava tocando com os caras e pintou uma grana de um festival na Inglaterra que eu fui tocar [o festival Toca Brahma]. Então, pintou um dinheiro na minha mão. E o que eu faço com o dinheiro? Gasto com música. Daí eu peguei e pensei “vou entrar em estúdio, vou registrar essa porra, vou tocar!”. Aí sob a pressão desse novo som, essa coisa de som de banda, eu entrei em estúdio. Por isso que o primeiro disco é muito rock n’ roll, aquele começo é muito rock, muito jam.

Eu chamei os discos de sessão porque foram mesmo “sessões de gravação”. Foram 3 dias de gravação direto, ao vivo. Como essas coisas você acaba não lançando, o tempo passou, eu comecei a aprender com os caras da banda e o meu som mudou. Os caras mudaram, eu mudei e fui compondo e, quando eu vi, eu já tinha um disco novo. Aí eu falei “Não, agora vamos gravar de novo, vamos fazer outra sessão”, e ela naturalmente acabou saindo menos enérgica, menos rock, apesar de ter um pouco disso. Eu achei que era muito rico lançar os dois discos, sabe? Queria lançar um disco duplo e queria diferenciar os dois, então criei essa história de sessões. O título geral, no entanto, era uma forma de falar “isso é um disco, ele tem um título, ele se chama ‘No Chão Sem O Chão’”. E o “No Chão Sem O Chão” é divido em duas partes, que tem dois nomes. Então, é muito por causa dessa coisa literária que tem meu som.

Aí eu achei que eu pudesse dar conta de tudo isso escrevendo o texto de contracapa. Eu fiz umas coisas muito loucas nos dias de hoje: uma, eu lancei disco; duas, é um disco duplo; e, terceira, eu fiz um texto de contracapa. Então, é uma maluquice atrás da outra, como se a indústria não estivesse tendo problema nenhum – todo mundo lança discos, ganha dinheiro, faz texto de contracapa. Eu quis me comportar fora do padrão.

Para mim, o artista Romulo funciona assim, eu preciso ser organizado por álbuns. Isso é muito importante para mim. O que vocês forem fazer com isso depois, é com vocês.

BP: É bem fora do padrão mesmo, são mais de duas horas de música…
Romulo: Mas, cara, também se não existe mais mercado, se não existe mais porra nenhuma, eu posso fazer o que eu quiser. Eu posso fazer um disco de uma música de quarenta minutos. Eu não tenho ninguém para ficar atrás de mim, ninguém para falar “Você vai lançar um disco duplo? Oh, nós não vamos conseguir vender!” ou “O quê? Você está gravando músicas de oito minutos? Com essas letras ininteligíveis? Você precisa de uma música mais assim…”, não tem mais isso.

Como não tem ninguém, eu faço o que eu quero. Tem o problema do amadorismo, no sentido de eu não viver de música, de ter dificuldade para isso, mas tem a alegria de fazer o que você quer cara. Eu nunca vendi tanto disco que nem esse, que é o “disco duplo”.

BP: Acho que isso rolou muito porque nesse disco você teve muito mais exposição.
Romulo: Mas esse disco é ancorado pelos outros dois, né? Eu quero fazer um novo disco porque eu acho que é isso que forma a coisa toda. Eu estou doido para fazer outro disco, porque eu lancei o “No Chão Sem O Chão” em abril e acabou, ninguém lembra mais. Já foram lançados outros grandes discos, como o da Céu, do Cidadão… Capaz de neguinho nem se dar conta que meu disco foi lançado esse ano. É muito louco esse ritmo. O do Cidadão já está sendo esquecido! E assim vai, é uma maluquice. Então, quando você forma, quando você faz o conjunto, isso ajuda as pessoas. E ancora. Esse disco só é desse jeito por que tem o “Cão” e o “Calado” que sustentam ele.

BP: E o próximo?
Romulo: O próximo, cara… Você sempre começa com algumas idéias, né? Minha idéia é que, como esse disco eu gerei em anos, fiz um disco duplo, esse novo eu estou querendo fazer muito rapidamente.

Eu estou a fim de fazer um pouco como eu fiz nesse, que é fazer um disco ao vivo, e isso com certeza vai ser. Eu quero privilegiar a canção, queria fazer um disco quase com uma escrita automática, chegar para os caras “tá aqui, a canção é essa”. Um pouco parecido com o show de hoje [30 de novembro na Cinematheque, onde ele tocou com banda improvisada com Kassin no baixo, Gabriel Bubu na guitarra e Domênico na bateria, todos quase sem ensaio], os caras sacavam mais ou menos como vai ser e pronto “Ficou bom, ficou bom. Vamos gravar”.

Quero fazer uma coisa mais parecida com um “disco”, sabe? Eu acho que até hoje eu não fiz um disco meu, é curioso. O primeiro era um disco absolutamente influenciado pelo samba. Ninguém tinha referência nenhuma, ninguém tinha falado sobre mim, eu amava Nelson do Cavaquinho, aí pensei “vou fazer um disco assim”. Aí vieram as críticas. Aí eu comecei a me questionar, “pô, calma aí, isso está esquisito”. Então, eu fiz um segundo disco que é uma transição daquele samba para esse. Nesse, para eu me livrar desse rótulo, eu fiz um disco louco, com vários ritmos e arranjos e 33 músicas…

Eu quero fazer um disco que seja finalmente um “disco”, com 12 faixas, ou 14, porque eu estou achando 12 impossível. Algo que seja “o Romulo” finalmente, sabe? Pinçar esse Romulo, que tem a ver com o samba, mas que não é do samba.

BP: Você acha que o “No Chão Sem O Chão” você meio que definiu quem você era como artista?
Romulo: Não. Esse definiu o que eu não sou. Eu não sou sambista. Não sou um sujeito que resgata porra nenhuma, sou um sujeito inventivo, um cara que não faz música por diversão. Um cara sempre pensando na história da música brasileira, sempre influenciado pela música brasileira. Tem canções que são samba de roda, tem canções que são rock. Acho que o grande mérito do disco é fazer que tudo isso não soe como um “samba do crioulo doido”, fazer com que uma canção como “Astronauta”, que é piano e voz, e uma canção como “Caveira” fazerem sentido num disco.

Então, eu fiz um disco para dizer “o Romulo era esse cara aí, esse maluquinho que compõe pra caramba, que gosta de compor. Um sujeito que está se medindo com a história da música brasileira e quer trazer alguma coisa dele para ela, se ele vai conseguir ou não, o tempo e as pessoas irão dizer”.

Eu quero fazer um disco mais formatadinho, sabe?

BP: Tem duas imagens que parecem meio recorrentes nas músicas, a do cachorro, do cão, e a da astronomia, do pierrô lunático que pisa nas estrelas, dos astronautas. Como você se relaciona com isso?
Romulo: Uma delas eu não posso dizer porque vem muito do Nuno Ramos e do Clima, então eu acabo cantando o que os caras querem dizer. As letras são sempre deles, então essa coisa da astronomia, não me diz muito, na verdade.

Tem alguns assuntos que de vez em quanto pintam nas letras do Nuno e do Clima. Por exemplo, o Clima agora tem feito muitas, muita letras que citam outras letras, é um assunto. Fica remexendo a história toda. Como a gente compõe muito, acaba dando nisso.

A coisa do cão é que é uma figura recorrente para nós três, no sentido da figura do cão como um ser que defina o Brasil, ou a música brasileira, ou a arte brasileira. Muitos artistas que a gente gosta lidam com essa idéia, como Oswaldo Goeldi, que é um artista que a gente ama e que fala muito dessa história do cachorro. Se você parar para pensar, o Nelson do Cavaquinho, ele é uma espécie de vira-lata, abandonado no mundo, meio tomando conta de si mesmo, que é a coisa do cachorro ser um ser altivo e pertencer a ninguém, fazer o que quer… É uma idéia muito presente mesmo. E continua. As canções novas têm muito a coisa do cachorro.

BP: Isso tem muito a ver com aquilo que você falou de os artistas de hoje terem muito essa liberdade, não terem amarra nenhuma.
Romulo: Também. A mesma liberdade que dificulta a vida da gente… Eu queria ter gravadora me dando uma grana pra gravar, pagando para eu entrar na novela, na rádio, não teria problema nenhum com isso. Mas só que eu não sei se teria essa liberdade que eu tenho e que já teve. Por exemplo, gravaram o “Clube da Esquina” numa grande gravadora. Naquele disco ninguém falou nada para aqueles malucos. Era um disco duplo, com música barroca, religiosa, misturada com Beatles, aqueles maluquinhos de Minas Gerais, de Niterói, tomando todas. O “Araçá Azul”! Tudo isso foi feito na indústria. Muita gente tem essa facilidade de meter a boca, mas elas [grandes gravadoras] fizeram coisas incríveis, cara. Teve um período todo.

Acontece é que eles não fizeram mais e já que eles não fizeram mais, qual é a grande novidade? É a gente não precisar mais deles para produzir. Eu acho que faz muita falta o dinheiro da indústria, faz muita falta. Mas só que se os caras não estavam acompanhando a gente, foi um prazer.

Eu concordo muito com o que o Fred 04 fala, aquela história de que se o mangue bit tivesse surgido hoje, talvez fossem só três páginas no Orkut. Ele tem razão, a indústria foi importantíssima para o mangue bit. Eles trouxeram os maluquinhos de Recife, colocaram para morar em São Paulo, pagaram clipe, tocaram na MTV, tocaram no rádio, foi importantíssimo. O que ele não fala é que nunca mais depois do mangue bit, os caras apostaram numa coisa boa, nunca mais. Talvez os Los Hermanos… mas os Los Hermanos não tiveram a máquina que a Nação Zumbi teve, era uma gravadora diminuída já.

Então, beleza, ela faz falta? Faz, mas do que jeito que ela está, do jeito que ela ficou na última década, a gente não precisa dela. A gente não precisa de alguém falar merda pra gente. Nós, os cachorros vira-latas, estamos aí sem dono fazendo o que a gente quer. A gente tem uma vida dura, mas uma vida feliz no sentido criativo.

Acho que é por isso que eu gosto de gravar disco. Quando eu gravo, eu sou um artista como o Caetano Veloso, o Milton Nascimento. Eu faço do jeito certo, eu tenho meus esquemas, eu descolo dinheiro, eu gravo num puta estúdio, fodaço lá de São Paulo. A minha gravadora [YB Music] é ótima e me dá o estúdio dela. Eu chamo os maiores músicos, eu faço tudo direito. Eu sou um artista de grande gravadora quanto eu estou gravando um disco, é um tesão. Aí quando eu vou lançar, eu não consigo tocar no Rio a não ser que eu pague do próprio bolso. Eu mal consigo tocar em São Paulo, toco em quatro casas e o circuito acabou. Pouca gente ouve meu disco, meu disco não toca no rádio, aí ele vai minguando, minguando, e aí eu falo “vou fazer outro disco!”.

BP: Partindo dessa questão, como é sua relação com a internet? Por exemplo, eu fiquei muito emocionado quanto você me mandou o disco, aquela coisa de chegar em casa e ter dois links do Rapidshare no meu e-mail. Você tem mesmo essa vontade liberar sua música?
Romulo: Lógico, lógico. Além de não ser inteligente correr contra a corrente, só um idiota dificultaria o acesso a sua própria obra, só um idiota. Porque não há como fazer isso. Se um estúdio de Hollywood não consegue segurar sua própria obra, imagine um artista pequeno como eu.

Além disso, é onde eu acho algumas alegrias. Você escrevendo sobre o meu disco como você escreveu, por exemplo, me garante umas semanas de alegria pelo menos. Aí uma hora, aparece um maluco da Dinamarca que me manda e-mail, da Dinamarca! Daí, quer dizer, a internet é uma espécie de “pequenas alegrias”, que quando você vai ficando meio desanimado, pinta um cara como foi com um português de um site muito bom chamado Bodyspace. Esse cara me garantiu uns meses de vida, sabe? Escrevendo o que ele escreveu do disco, fazendo a entrevista comigo. É isso. A internet é esse lugar em que você pode viver, produzir um trabalho extremamente experimental e esse trabalho existir. A internet, então, é uma espécie de público inimaginável, do qual você pega sua fatiazinha. Ela só não é capaz ainda de fazer a gente viver de música.

A gente está vivendo um momento louco, todo mundo está fazendo o que dá para fazer e ninguém sabe o que vai acontecer. Quando essa coisa se firmar, quando esse novo meio tiver esses mecanismos que sejam capazes de fazer todo mundo viver disso… O que talvez demore muito também, sei lá, é meio uma coisa “quem sobreviver, verá”. Mas não dá para ir contra, não dá para ficar chorando “aí porque antes era assim”, foda-se antes, velho!

Acho que nesse sentido deve ser muito mais difícil para um cara como o Fred 04, que teve a indústria e agora não tem mais, mas ele também não virou o Caetano Veloso, então ele se fodeu… Ele, o Otto. A Nação talvez não, mas os caras se fodem pra caralho, tem que fazer um monte de projetos, arranjar um monte de outras formas. Então, isso deve ser muito foda na cabeça deles mesmo. Eles voltaram a ser independentes, só que os caras tiveram um esquema bom. Acho que deve ser muito mais difícil para eles do que para um cara que nem eu, que nunca tive porra nenhuma. Pra mim é assim e vai ser assim.

Para esses caras eu acho que foi até muito bom isso, eles serem livres hoje. O caso da Maria Bethânia eu acho exemplar, isso dela gravar um disco por ano, fazer projetos especiais. Maravilha, né? Tudo que eu queria para minha vida.

Então, a internet é a minha televisão, cara. É isso. Em algum momento lá no passado teve o rádio. Aí teve a revolução da TV. E agora a revolução da internet.

BP: Você costuma buscar sons novos na internet?
Romulo: Então, cara, eu sou velhinho, estou chegando nos quarenta, é curioso isso porque hoje eu ando ouvindo muita coisa que ouvi a minha vida inteira. Por exemplo, eu estou ouvindo Luiz Melodia loucamente, não paro de ouvir. Mas o que eu ouço, o que eu penso e o que eu ando escrevendo é sobre a minha geração, meus contemporâneos. Isso eu faço como um exercício. Quando começam a falar, quando um nome começa a se repetir muito, eu vou no show do cara, eu baixo o disco dele. Eu me ponho muito nesse papel, de escrever texto para o Curumin, para o Bruno Morais, para o +2, acabei de terminar um sobre o Rodrigo Campos, as cantoras.

Eu quis botar esse papel para mim, sabe? Fico um pouco irritado com um monte gente dizendo que não tem nada de bom, sabe esse papo? Então, às vezes eu me ponho nessa função de falar “meu, vocês estão loucos? A gente é uma geração brilhante, uma das gerações mais brilhantes da música brasileira”. A única diferença é que é uma geração que ainda acontece apenas no subterrâneo, então não dá para ficar falando que não acontece nada, essa galera é que não está ligada.

BP: Para onde você acha que a canção brasileira está indo?
Romulo: Eu acho que teve um momento, no início desse século, que foi quando a galera começou a gravar disco em casa e, então, passou a manjar de equipamento, manjar de um amplificador valvulado, de um pedal, do que faz, do que não faz… Isso parece pouca coisa, mas isso mudou tudo, sabe? O som da música brasileira mudou. Não é à toa que o Caetano fez esses dois últimos discos. O Caetano sacou que tinha um negócio novo, tinha um povo fazendo um som com um timbre diferente que era algo que ninguém nunca tinha feito na música brasileira. Que era algo que não vinha lá do Jimi Hendrix, era algo que vinha do Sonic Youth, ou de sei lá de onde. Então, gravar disco virou um exercício. Não é à toa que hoje a gente tem grandes produtores como o Kassin, o Lenza, o Beto Vilares. Esse negócio firmou. Aí eu acho que faltavam canções boas, que logo começaram a surgir. Essa história de parece que é, parece que não é a Tropicália, esse fato de não existir algo intelectualizado por trás, eu costumo dizer que é como se fosse uma realização da Tropicália. Aquilo que o Caetano fazia como programação, do tipo “não, eu vou cantar alta cultura e baixa cultura, eu vou cantar tanto Odair José quanto João Gilberto”, aquilo que ele falava um pouco para provocar e todo mundo acreditava, esse negócio entrou na cabeça de todo mundo. Hoje, nos meus amigos, todo mundo ouve de tudo mesmo. Sidney Magal é legal pra caralho, Tom Jobim é o maior de todos e tudo me pertence, sabe? Eu não sou sambista, eu não sou roqueiro, eu não sou porra nenhuma, sabe? Eu faço samba com guitarra distorcida. Mas sem ninguém pensar, sem ninguém planejar…

BP: …não existe movimento…
Romulo: …não existe movimento. Não tem mais como existir movimento, ninguém dá conta do Brasil, ninguém dá conta dessa cidade. Ninguém consegue organizar o Rio de Janeiro. Você consegue organizar a Lapa – “a Lapa é onde Teresa Cristina e seu reinado acontecem”. É só ali. Não é o Rio de Janeiro inteiro. Aí tem o Cacique de Ramos, que é outro tipo de samba. Tem o Cinematheque. Cada um tem seu meio. Mas esse monte de “meiozinhos”, no geral, num âmbito maior, é algo grande, é uma cena muito forte, que não dá mais para organizar. Aí aparece um cara como o Caetano, que tá ligado, e que por uma sorte, tem essa cena do lado dele, que é o filho e os amigos do filho, ele saca isso tudo que mudou. Tirou o Jaques Morelenbaum e colocou o Pedro Sá. Tipo, “ô Jaques Morelenbaum, você foi incrível, fizemos grandes discos, mas tem um troço aí, em que meu filho é figura fundamental, que é importante que eu faça”. Teve um cara de São Paulo que botou uma frase na minha boca que eu detestei. Ele tinha perguntado se eu achava que o Caetano tinha poder de mudar alguma coisa hoje em dia e ele escreveu que eu achava que não tinha, porque o que ele falava não repercutia tanto mais assim. Mas na verdade, ele hoje é mais importante nas ações, no fato de ele ter feito esses dois discos, do que o que ele está falando. Ele falou com os dois discos dele.

E aí é o seguinte: a banda dele tem os caras que tocam com o Do Amor e o Do Amor toca com a Nina Becker, que participa da Orquestra Imperial, que tem o Kassin, que hoje está tocando com um maluco de São Paulo e esse maluco de São Paulo escreveu o release do Curumin, que tocou com o Catatau, que toca com não sei mais quem… É uma rede de gente interessantíssima, ninguém tem movimento, tem pensamento, mas há sim uma cena. Uma cena muito, muito forte.

Acho que isso: a música brasileira vai sobreviver e vai continuar sobrevivendo. A gente só tem que ter força para continuar fazendo.

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3 respostas para Entrevista: Romulo Fróes

  1. Tô felizona porque o BLOODYPOP não sumiu da blogsfera!!!!!

    BEIJARCTICS.

  2. muito bom, muito bom.
    é muito importante que essa visão otimista do momento musical brasileiro seja mostrada para o maior número de pessoas possível, e é louvável que o Romulo esteja propagando isso (o que na verdade já é um discurso antigo dos músicos, mas isso na voz do cara que fez o melhor disco do ano passado acaba sendo saudavelmente ampliado).

    parabéns pela entrevista! está boa demais.

  3. Pingback: Entrevista: Romulo Fróes | Revista NOIZE - A revista de música gratuita do Brasil

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