Disco: “/\/\/\Y/\”, M.I.A.

Convenhamos: a M.I.A. é um caso raro. Em meio a toda uma geração artística que parece, na maioria das vezes, se interessar mais em não se preocupar ou se levar a sério, ela é uma das poucas artistas que, além de ter muito com que se preocupar (vistos negados, problemas com produtores e jornalistas nova-iorquinas), tem e sustenta uma marra – e liberdade artística – que pouca gente consegue manter. E o que é interessante na trajetória da moça é que quanto mais fama ela parecia ter (de “Bucky Done Gun” a “Paper Planes” foi um pulo) mais sua música se distanciava do fenômeno pop que ela parecia incorporar. A maior concessão de “Kala” usa justamente um sample do Clash, que não é uma referência tão facilmente identificada por ouvintes radiofônicos – o resto do álbum se sustentava mais nas esquisitices agressivas de “Boyz” e “Bird Flu”, cujo público certo ficava mais movido por suas referências aos Modern Lovers e aos Pixies que pela influência do funk carioca, fator que inicialmente trouxe certa notoriedade à moça no Brasil.

“/\/\/\Y/\” segue essa linha de trabalho, reunindo o maior número de indulgências (com uma quantidade esperada de erros) da artista. Depois de tanta confusão, polêmica e expectativa envolvendo o lançamento de seu terceiro trabalho, a cantora está mais “personalidade” do que nunca, mesmo que isso não signifique que a discussão esteja tão preocupada com a música em si. O que seria esperado: metade do motivo por que as pessoas falem mais de Maya que de “/\/\/\Y/\” é a própria estratégia de marketing que a cantora adota em cada episódio que envolve o seu nome. E a situação chegou a um ponto tão crítico que, disco inevitavelmente vazado, muita gente acabou amando ou odiando o trabalho mais pelo que ele significa do que pelo que ele soa.

“The Message” pode até ter sido escrita antes de toda(s) a(s) história(s) que precedeu o lançamento do álbum, mas reflete a postura conspiratória e peituda que a artista escolheu para si. Segundo ela, pra chegar do Google ao Governo, basta um pulo. O assunto e a abordagem são bastante questionáveis e exaustivos, mas o primeiro passo para aproveitar o disco é entender que quase ninguém ouve a moça pelo caráter “engajado” de sua música. Desde o início ela é meio que como o moleque de 15 anos que anda com o manifesto comunista na mochila, mas não resiste às delícias capitalistas de um iPod ou um tênis da Nike. O que é interessantíssimo, em termos de figura midiática: um ídolo (quase) pop que incorpora a contradição entre uma consciência política e toda a extravagância e excesso em que a maior parte da música de hoje (mais consumida que efetivamente ouvida) é baseada.

Essa energia adolescente e até certo ponto inconseqüente moldada por um bom time de produtores é o que move as melhores faixas do álbum. A ótima “Steppin’ Up”, já no início do disco, junta motores (ou motosserras, é difícil dizer) industriais, hip-hop autotunado, egocentrismo e heavy metal num liquidificador e grava os pedaços triturados, cada um no lugar certo. “Born Free” é a metralhadora que surge do cruzamento entre o Suicide e o Iggor Cavalera que todo mundo já conhecia, mas a faixa mais forte mesmo é “Teqkilla”, espécie de monstro dançante de seis minutos cheio de sintetizadores e batidas camaleônicas. A parte mais comercial do disco acaba sendo a menos intensa e convincente. Mesmo assim, um bom nível de qualidade é mantido no quase hit que é “XXXO” ou na tranqüilidade dancehalliana de “It Takes a Muscle”. A verdade é que as faixas menos palatáveis às massas acabam sendo as melhores do disco, ironicamente pelo fato de que agregam nichos sonoros em todos que, mesmo não sendo nada comerciais, são mais acessíveis que suas referências. As letras, por sua vez, alternam entre frases de efeitos inspiradas e destemidas e besteiras “críticas”. O mesmo disco dá espaço pra vitalidade de um “O, lord, whoever you are/ Yeah, come out, wherever you are” e pra besteira quase risível que é dizer que uma nação é “uma fábrica de galinhas” (seja lá o que isso quer dizer) em vez do “país livre” que disseram que seria.

A maior frustração mesmo é que “/\/\/\Y/\” não seja nem o disco do ano nem tudo que se esperava, provavelmente abocanhando o título de disco que mais vai dividir opiniões, tanto pela música quanto por toda causação que o envolveu. Faz sentido. Como o próprio título sugere, o álbum é sobre a Maya e para a Maya. E quem acompanha o rastro da moça na mídia, sabe que ela definitivamente não agrada a todo mundo.

[“/\/\/\Y/\”, M.I.A. 12 faixas produzidas por Blaqstarr, Diplo, Rusko, Switch e pela própria artista. Lançado em Julho de 2010 pela N.E.E.T. Recordings/XL/Interscope]

[rating: 4/5]

Esse post foi publicado em Sem categoria. Bookmark o link permanente.

2 respostas para Disco: “/\/\/\Y/\”, M.I.A.

  1. Pingback: Tweets that mention Disco: “///Y/”, M.I.A. | Bloody Pop -- Topsy.com

  2. Boby disse:

    “Desde o início ela é meio que como o moleque de 15 anos que anda com o manifesto comunista na mochila, mas não resiste às delícias capitalistas de um iPod ou um tênis da Nike. ”

    DeSdE o início Boby é meio que como o moleque de 15 anos que anda com um livro do Faulkner na mochila, mas não resiste as delícias humoristicas de ler uma CrItIcA do Bloody Pop que utiliza uma metafora manjada desse tipo.

    É noihs, Abreu.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s