Quem escuta Arcade Fire pela primeira vez pode tanto pensar que eles são a banda mais genial e cativante dos últimos 5 ou 6 anos quanto achar que no som dos caras – e moças – não tenha nada de revolucionário. E ambos estariam certos, dependendo do que cada um valoriza musicalmente.
Já vou esclarecendo para o leitor que estou entre aqueles que acharam genial praticamente tudo que a banda lançou até aqui. Na época do lançamento de “Funeral”, em 2004, eles surgiram como um tapa na cara daquele ar de desdém e ironia da maioria das bandas do tal mundo indie. Win Butler e companhia chegaram falando de temas nada leves, como morte e desespero, nada prontos pras pistas de dança. Mas o que os diferenciava era a intensidade e até mesmo a coragem com que esses temas eram traduzidos na música. A voz de Butler, principalmente, expressava tudo o que as canções exigiam, sem medo nem vergonha. Além disso, havia uma simplicidade e crueza nos instrumentos, apesar da banda ter 7 ou 8 integrantes.
Tudo certo. Só que paixão e intensidade nunca ganharam nenhum campeonato. Mesmo com todos esses integrantes e ambições, o som da banda tem se mantido sem grandes floreios, optando, em vez disso, por colocar detalhes sutis em cada música. O grande talento do Arcade Fire como banda é se valer de qualidades bem tradicionais e cada dia mais raras: a facilidade de compor grandes melodias e de construir texturas que vão se revelando aos poucos, audição após audição.
Em “The Suburbs”, o Arcade Fire chega à maturidade. Musicalmente, é o disco mais ambicioso e variado da banda. Dá a impressão que a eles vem absorvendo cada vez mais a influência de bandas e compositores dos anos 70 – Springsteen, Van Morrisson etc – que focavam naquela interação orgânica entre os músicos. Isso chama atenção logo na faixa-título, que tem um clima caloroso, uma faceta do grupo que não tinha aparecido muito até agora. “Wasted Hours” é a canção que mais passa essa segurança do grupo na qualidade das suas melodias, apostando na simplicidade de um violão e nas harmonias vocais discretas. E se é certo que o grande trunfo do álbum está em canções mais lentas que vão crescendo aos poucos, como “Deep Blue”, a maturidade musical da banda fica evidente na facilidade com que eles passam da explosão de “Empty Room” para a mais calma “City With No Children” sem nenhuma das duas soar deslocada. Os tipos de composições também variam bastante neste trabalho. Há melodias pop bem imediatas – “Rococo”, “Ready to Start”, “We Used to Wait” – e também faixas mais meditativas sem aquele refrão fácil – “Half Light I”, “Suburban War. Sem contar a influência oitentista que aparece de vez em quando num teclado vintage, parece que fica no ar por todo o disco uma inspiração implícita de David Bowie, desde uma vibe do álbum “Hunky Dory” até a forma como as guitarras soam em “Half Light II (No Celebration)”. A produção está mais contida dessa vez. Ao contrário do disco anterior, “Neon Bible”, que passava um clima de tensão quase constante através de grandes efeitos, a produção de “The Suburbs” não amplifica demais os arranjos, mantendo um som menos processado, mais fiel a essa interação orgânica da banda.
Tematicamente é que a ambição da banda parece ser ainda maior, e é justamente aí que “The Suburbs” evita se tornar um desastre, pois, apesar do álbum certamente ter um tema, ele não se desenvolve como um disco conceitual, martelando uma história ou um assunto toda hora na cabeça do ouvinte. Numa época na qual bandas tentam se renovar requentando pseudônimos à la “Sgt. Pepper” ou fazer discos conceituais com a sutileza de um elefante, o Arcade Fire passeia pelos seus subúrbios entre temas pessoais e comentários sociais. O tema do disco parece ser aquele sentimento universal de idealizar ou um lugar ou uma época, na qual a vida deveria ser mais fácil, porém realmente nunca é. O subúrbio dá a entender justamente isso: o lugar supostamente perfeito que nunca parece cumprir a sua promessa. As letras se concentram mais no tempo que passou e em como é querer crescer e se comprometer com a vida adulta, e, mesmo assim, talvez não se sentir nada melhor depois de tudo isso. O que impressiona nesse álbum é a banda conseguir sustentar uma consistência de qualidade – musical e lírica – nas 16 faixas, com praticamente todas elas merecendo destaque.
“The Suburbs” é aquele tipo de grande álbum à moda antiga, que não apenas cumpre seu papel como música pop, mas que tem alguma coisa importante a dizer sobre a época ou a cultura na qual foi feito, sem com isso soar pedante ou tornar o impacto da música menor. Apesar de “The Suburbs” não ser perfeito nem revolucionário, ele confirma que o Arcade Fire é aquele raro caso em que todo o resto da cena musical meio que empalidece quando eles entram em campo com algo novo. E, sendo a terceira vez que isso acontece, 3 a 0 já é goleada.
[“The Suburbs”, Arcade Fire. 16 faixas produzidas por Markus Dravs e pela própria banda. Lançado em Agosto de 2010 pela Merge]
[rating:4.5/5]

Deixar mensagem para alexandre paula Cancelar resposta