O momento que define o Do Amor para mim é bem particular, devo dizer de antemão. Estava eu repassando as perguntas rasbicadas num bloquinho que viriam a ser a primeira entrevista desse blog, quando Gabriel Bubu, guitarrista, comentava com seus companheiros de banda, enquanto acertavam o setlist do show daquela noite, que finalmente tinha ouvido (e gostado) do disco do Vampire Weekend (o ano era 2008). A declaração poderia até ser ser tomada no sentido de usar a banda como referência estética (o que não acontece, apesar das similaridades entre as duas bandas até existirem) não fosse a qualidade do álbum que Bubu ressaltava para Ricardo (baixo), Callado (bateria) e Benjão (guitarra). Era um “disco de banda”, ele contava aos amigos, e era aquela sonoridade “de banda” que ele gostaria de ter no disco do Do Amor, naquela época ainda nos primeiros estágios de concepção.
A declaração de Bubu poderia até apenas um namedropping malicioso para fisgar a atenção do jornalista incauto (não acredito que tenha sido), mas, qualquer que fosse a sua intenção dizendo aquilo, é impossível não notar que a questão – o ser e soar “como uma banda” – está no centro da própria existência do Do Amor.
Uma busca rápida no clipping conta a história: exímios instrumentistas, cada membro do Do Amor é ou já foi membro de várias outras formações, uma dezena de artistas, de Caetano a Jonas Sá, de Canastra a Lucas Santtana. O fato de terem se tornado algo como “a banda de apoio nº 1” da música carioca pós-Los Hermanos leva muita gente a erroneamente tratar o Do Amor mais como um projeto brincalhão de fim de semana, coisa que não é e que os integrantes nunca quiseram que fosse. O Do Amor, não engane, é uma banda de rock e esse disco é a melhor prova que eles poderiam nos dar.
Rock é aqui tomado não no sentido de rock como gênero definido, com suas regras de etiqueta e ares de superioridade. É, antes de tudo, uma maneira de gostar e tocar música sem preconceitos e pudores. Rock aqui é mistura e na mistura do Do Amor sempre coube mais temperos do que muita gente teve paladar para provar numa vida inteira.
Tais temperos vem do Rio, da Bahia, do Pará, da Jamaica, da Nigéria, de NY, de Londres e, mas em “Do Amor” seu uso nunca é mero exercício de comentário cultural. É apreciação genuína. Quando a banda diz que “Pepeu Baixou Em Mim” ou que “Isso É Carimbó”, não soa como se eles tivessem falando sobre guitarra baiana ou música paraense, e sim expressando aquilo que esses ritmos despertam neles.
Assim, “Do Amor” é basicamente um álbum de guitarras tradicionalmente brasileiro. A afirmação pode parecer estranha para alguns – afinal, o que seria um “álbum de guitarras” num país que já fez passeata contra o instrumento? – mas faz pleno sentido historicamente. “Do Amor” é um guitar album como são “Expresso 2222”, “A Tábua De Esmeralda”, “Fa-Tal”, “Nós Vamos Invadir Sua Praia”, “Selvagem?”. São as guitarras que dão vida ao disco: o solo emocionado de Benjão que fecha “Vem Me Dar”, o riff matador de “Dar Uma Banda”, a micareta no final de “Pepeu Baixou Em Mim”, a ponte de “Chalé”, o final de “Exploit”, a levada da “Morena Russa”. Não é o caso de menosprezar a cozinha de Ricardo Dias Gomes e Marcelo Callado – se o Caetano aprovou, quem sou eu para discordar – mas muito da mágica Do Amor reside na maneira que Bubu e Benjão (dois guitarristas de solo) interagem e se complementam.
A sonoridade que Bubu buscava lá em 2008 parece se concretizar em 2010. Produtor experiente, Chico Neves merece todos os cumprimentos por conseguido entender e transportar a energia da banda ao vivo para estúdio, adicionando uma série de pequenos detalhes que garantem algumas surpresas para quem já frequentava os shows da banda (“Brainy Dayz”, “Chalé” e “Lindo Lago Do Amor” são os melhores exemplos).
Em certo ponto do disco eles podem até dizer com sarcasmo que também gostariam de ter “uma banda que falasse as coisas bonitas, bacanas”, mas a verdade é que eles já são essa banda. Uma banda que teve que aprender a ser banda e que por isso soa como nenhuma outra. Vibrante, divertido e ao mesmo tempo desafiador, “Do Amor” é um disco que, palpite meu, vai ecoar durante anos na cabeça que qualquer bom músico que quiser ter uma banda no Brasil.
[“Do Amor”, Do Amor. 14 faixas com produção de Chico Neves. Lançado pela Mais Brasil Música em Setembro de 2010]
[rating: 5/5]

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