Disco: "Escaldante Banda", Garotas Suecas

Vou ser sincero, pouco conhecia de Garotas Suecas até pouco tempo. Na minha mente, Garotas Suecas era uma banda de meninas loiras (bonitas) que tocavam um musica bem calma no estilo voz e violão. Faziam mais sucesso pela beleza das garotas do que por sua música, como uma versão brasileira das Those Dancing Days. Outro amigo meu, achava que Garotas Suecas era justamente o contrário, uma banda só de cabeludos que faziam um metal no melhor estilo nórdico. Com o buzz envolvendo o lançamento do primeiro disco, comecei a prestar mais atenção nas tais Garotas.

O choque veio ao ouvir a primeira música de “Escaldante Banda”,  “Tudo Bem” pelo streaming da NPR. “ISSO QUE É GAROTAS SUECAS? Uma big band de funk anos 70, jovem guarda, tropicalismo no melhor estilo, Roberto Carlos, Tim Maia, Jorge Ben e Mutantes? PORRA!”, pensei. Como diz logo a letra da faixa, “Deveria ter ouvidos os conselhos que me deram / Mas tudo bem / Pra toda perda há ganho / Nada mais parece exato / Mudar um pouco de formato”.

Passado o choque, as Garotas Suecas baixou em mim (não foi só o Pepeu). Ao falar de amor em “Ela”, a banda explica sua simplicidade: “ela me pediu para escrever uma canção / palavras simples sobre meus acordes do meu violão”. Queria esquecer um pouco os problemas e dançar ao som das guitarras e metais swingados de “Ninguém Mandou”. Eu definitivamente “não queria me mandar dali / tinha achado o que era de bom”.  E mesmo neste encontro de ritmos  e gerações, – indies paulistas fazendo soul brasileiro dos anos 70 – eles ainda conseguem soar mais autênticos do que muita banda de funk mais “cascuda”. Não é revival,  e descoberta de uma época.

Em “Mercado Do Roque Santeiro”, através de camadas de guitarra e uma levada de percussão, cria-se uma atmosfera de funk dos anos 70, no qual banda explica de maneira indireta a cena de rock do Brasil hoje: “O roque tem tudo / tudo que é Roque tem / e pode ser que eu esteja errado / mas se não tem no Roque ainda não foi inventado”. Nada mais consonante com a atual efervescência da cena brasileira. Mas porque Roque e não Rock? Simples, a figura do Roque Santeiro, presente numa novela brasileira e nome do mais famoso mercado de Angola, de certa forma é a metáfora para algo que não conseguimos viver sem.

O Garotas Suecas junto com bandas como o Cérebro Eletrônico e Do Amor estão colocando ritmos e estilos que de certa forma foram colocados de lado por tempo demais e estão fazendo isso da maneira certa, com o coração desprovido de cinismo. Não é a toa que 2010 também será uma marco para a música brasileira – uma espécie de novo “ano zero”, repare – com os grandes primeiros discos como este, do Do Amor, da Tulipa, do Holger, da Apanhador Só, do Thiago Pethit e de tantos outros.

Com as Garotas Suecas  – que para minha tristeza de garotas não tem nada, só uma tecladista que o apelido deveria ser Lafayette de tão boa – você pode encher o peito e cantar: “Se um dia eu também me levantar /  querendo ouvir Roberto / eu sei que vou me acostumar. / E você também irá”. Roberto Carlos nunca foi tão quente, escaldante.

[“Escaldante Banda”, Garotas Suecas. Lançado pela American Dust em Setembro de 2010. Baixe o disco aqui.]
[rating:4.5/5]