Disco: "Amigo Do Tempo", Mombojó

Uma das coisas que eu ainda não entendi na campanha de divulgação de “Amigo Do Tempo” foi o discurso adotado por Felipe S e seus companheiros bradando que a esperança do Mombojó com o lançamento do álbum era recuperar a atenção do público, que supostamente teria debandado durante o tempo anos que se passou desde a morte do companheiro O Rafa em 2007 e a subsequente saída de Marcelo Campello em 2008. O público do Mombojó – eles devem saber disso, no fim das contas – nunca perdeu a banda de vista e, se é para comparar os dois momentos, os shows estavam tão ou mais cheios há dois anos do que estão agora (os que vi, pelo menos). A banda pode não ter aparecido na capa da Folha, mas sem dúvidas a jornada do Mombojó até “Amigo Do Tempo” foi uma das coisas mais bem documentadas nesses dois ou três anos em que a, uhm, “blogosfera musical brasileira” tomou forma. E estamos bem felizes de termos contribuido com isso.

É impossível não notar que “Amigo Do Tempo” de estúdio é um álbum bastante diferente do “Amigo Do Tempo” que foi tocado ao vivo nos últimos 3 anos. Se você viu algum show da banda entre 2008 e 2009, sabe do que eu estou falando. Ainda que fosse óbvio notar que com menos dois membros a banda estava livre para se tornar uma outra banda, pouca gente esperava que eles fossem soar como uma banda de rock tão triste. Quer dizer, é óbvio que eles tinham motivos suficientes para fazerem um álbum melancólico, mas, até pela ferocidade que demonstravam nos shows – nesses dois anos eles tocaram mais alto e com mais vontade do que nunca, como se quisessem provar para si mesmos que eram tão bons quanto antes – “Amigo Do Tempo” soa bem diferente do que se esperava.

Ao contrário dos seus dois outros trabalhos, o álbum é o primeiro financiado pela própria banda e gravado onde e com que era possível (a idéia inicial era trabalhar com Kassin na produção), o que acabou atrasando o lançamento em pelo menos um ano. A demora para ser finalizado e toda a turbulência pela qual a banda passou deixaram marcas bastante profundas em “Amigo Do Tempo”.

Talvez por isso seja tão interessante notar o fato que a melhor música da coleção seja justamente a única a ter uma gravação do saudoso flautista O Rafa, falecido em julho de 2007. “Entre A União E A Saudade” abre “Amigo Do Tempo” e contém uma levada de violão gravada ainda em 2006 por Rafael. É sem dúvidas a grande música do disco e talvez a melhor deles desde o “Nadadenovo”, uma melodia das mais bonitas amplificada pelo arranjo suntuoso que, além dos violões e das guitarras, combina teclados, metalofone (tocado por Chiquinho), sintetizadores e Guizado, tocando trompete e flugelhorn. Na letra, a mensagem é clara: “me livrar da dor e voar / me livrar da dor e crescer”.

“Entre A União E A Saudade” resume bem o humor do disco. “Amigo Do Tempo” é na maioria das vezes plácido e contemplativo, como se eles estivessem contabilizando perdas e ganhos de uma guerra acabada. Não é um disco da reconstrução, mas sobre a reconstrução do Mombojó. As canções falam de nostalgia (“como o tempo que ficou para trás, um minuto a mais agora tanto faz”, “eu ando sonhando com o tempo”), de não se reconhecer no que parecia ser você (“o seu sorriso não lembra mais de mim”, “casa caiada não sou mais quem fui”), de ter que escolher um caminho (“eu pensei em deixar você”, “eu sinto, mas não vou ficar”) e de planos que nem sempre saem como se pensou (“preciso ir além / me esforçar um pouco mais”, “sonhos vão passar”, “espero muito mais sem ter que pisar em ninguém”). Se muito se falava da pouca idade dos integrantes quando a banda surgiu, as músicas aqui parecem contar um pouco de como os cinco amadureceram.

A música acompanha as mudanças como pode. Em muitos casos, há uma boa quantidade de espaço sobrando em “Amigo Do Tempo”, ainda que Chiquinho, Marcelo Machado e Felipe S se esforcem para preencher a ausência de Rafa e Campello com boas inserções de guitarra, teclados e sintetizadores. Essa falta acaba funcionando de maneira metafórica – a ferida ainda está aberta, eles gostariam de lembrar todo mundo disso. Mesmo assim, uma das boas conclusões que eles parecem ter chegado é no que são bons de verdade. A banda continua soando melodicamente singular, cruzando Stereolab e High Llamas com aquilo que o Matias bem definiu na sua resenha para Bizz sobre “Homem-Espuma” como “um momento fugidio entre a jovem guarda e a tropicália”*, o que garante um resultado surpreendente coeso para um disco gravado em estúdios, anos e com pessoas diferentes.

Há bons momentos espalhados por todo álbum, como a já comentada faixa de abertura, os grooves contidos de “Amigo Do Tempo” e “Justamente”, os rocks essencialmente Mombojó (“Casa Caiada” e “Qualquer Conclusão”, prontas para temporada de festivais que eles enfrentam nos próximos meses). Até uma faixa que parece destoar de todo resto, como “Antimonotonia”, faz sentido dentro do contexto ao mostrar que o grupo ainda consegue se divertir depois de tudo isso.

Discos de vida-após-a-morte como este costumam ser definidores de personalidade de quem passa por eles, – AC/DC, Pretenders, New Order, para citar alguns – o que deve ser o caso para o Mombojó também. Eles são um outra banda agora e estão falando isso calmos e no tom certo. Como eles mesmos ressaltam, gratificante é se surpreender.

[“Amigo Do Tempo”, Mombojó. 11 faixas produzidas pela própria banda, Rodrigo Sanches, Evaldo Luna e Pupilo. Lançado pela própria banda em Junho de 2010.]
[rating: 4/5]

* Não lembro se o trecho é exatamente esse, mas a idéia é. Quem ainda tiver a revista (junho/2006, eu acho), confirme por favor.