Convenhamos: com toda a causação que tem rodeado as últimas produções do grupo, o of Montreal vinha largando mão do lado banda e se concentrando mais no lado espetáculo da coisa. Desde “Satanic Panic at the Attic” – o primeiro disco dos caras a ter uma repercussão boa o suficiente pra colocá-los mais perto do holofote – a banda deu uma guinada em direção ao funk, serviu de clínica de reabilitação para um Kevin Barnes recém-separado, deu luz a um transexual negro, derreteu cérebros com suas apresentações e lançou um disco que disparava, em média, 35 refrões por minuto contra o ouvinte desavisado. Mas se a extravagância de “Hissing Fauna, Are You The Destroyer?” afasta alguns pelo exagero, o que faz do grupo ainda válido é o jeito que eles têm com ganchos e melodias. A verdade é que, mesmo com toda a loucura que se passa no palco e nos discos do conjunto, o of Montreal faz música pop.
É nesse contexto que se deve ouvir “False Priest”. Cheio de referências que Barnes adora alardear tanto em entrevistas quanto na própria sonoridade do grupo, o disco é essencialmente radiofônico, ainda que dificilmente vá parar em algum hit parade brasileiro. “Coquet Coquette”, com levada flamenca e Bowieana (vide “Andy Warhol”), explora uma relação de amor doentia com riffs imensos e letra acertadamente melodramática (“I won’t forget how you made me cry to prove I was beautiful.”) e “Sex Karma”, com vibe Jackson 5 via psicodelia pastoral, são duas das melhores faixas que o grupo já lançou, desde que estabeleceram o R&B como uma fonte certa de inspiração.
Mas se a parte forte do disco se sustenta por melodias ganchudas, refrões memoráveis e letras com senso de humor e honestidade que são tão surreais quanto descomplicadamente verdadeiros, o disco perde qualidade nas indulgências e concessões que faz a seus padrinhos musicais. George Clinton, Prince e Michael Jackson não são exatamente fáceis de canalizar como influência, principalmente pela excentricidade dos artistas. Os grooves orgânicos, sensuais e crus que o Funkadelic e o Parliament dominaram, a ambigüidade sexual que mexia com a cabeça de todo mundo na época em que o Prince era uma provocação e não uma vergonha e as composições infalivelmente produzidas de Jackson são coisas que, do jeito que são tratadas em algumas faixas, parecem mais imitações mal sucedidas do que inspirações válidas. “Hydra Fancies” é um caso em que a melodia não se preocupa em fazer nada mais que ser previsível e funk barato e oitentista, tem um refrão que erra no falsete e só piora quando é “cantado” pelos sintetizadores; “I Feel Ya Strutter”, com dificuldades semelhantes na voz de Barnes, é um improviso mal feito que chega perto de um refrão, mas nunca entrega o que promete e “Enemy Gene” perde pontos pela tentativa falhada de uma sonoridade dissonante logo antes de se garantir com o soul intergalático que Janelle Monáe acompanha.
Acaba que ouvir “False Priest” é meio que como ver “Rocky Horror Picture Show” pela primeira vez. Com uma estética espalhafatosa, personagens transexualmente excêntricos e um monte de coisa que não faz sentido, é o tipo de trabalho que consegue reações exacerbadas. Vai ter gente amando o disco e falando que é o pior do ano, mas quem se permitir encarar o “False Priest” pelo que ele realmente é vai encontrar um disco satisfatório, com firulas e frufrus.
[“False Priest”, of Montreal. 13 faixas produzidas por Kevin Barnes e Jon Brion. Lançado pela Polyvinyl em setembro de 2010.]
[rating: 3.5/5]

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