Disco: "Pop Negro", El Guincho

Não é fácil falar sobre Pablo Díaz-Reixa, o homem por detrás do El Guincho. Nascido nas Ilhas Canárias e vivendo em Barcelona, Díaz-Reixa é tratado por aquelas bandas como um dos mais promissores músicos surgidos na última década. Mas, fora de Espanha, é basicamente um desconhecido. Por isso, para falar de Pop Negro, seu segundo e recém-lançado disco, talvez seja melhor começar a falar do primeiro, Alegranza (2007), pois foi com ele que o espanhol, de projetos anteriores como o Coconot, começou a se tornar conhecido mundialmente. A repetição de samples ensolaradíssimos do disco de Díaz-Reixa chamou a atenção de um bocado de gente nos Estados Unidos, por causa do mais recente interesse do indie americano pela tropicália e pelo afro-beat, reacendido em parte por grupos como o Vampire Weekend.

Alegranza, inclusive, foi incensado à época como uma espécie de parente latino de Person Pitch, álbum-solo do Panda Bear, um dos vocalistas do Animal Collective. E, de fato, tanto Person Pitch quanto Alegranza têm como fundamento os samples e suas repetições. Mas a comparação é injusta, porque – e mantenha à mão suas pedras por um momento, amigo indie – El Guincho e seus Alegranza e Pop Negro são bem mais importantes, ao menos para nós, brasileiros, do que o álbum experimental de um americano fascinado pelos batuques latinos e africanos. E vou dizer por quê.


Alegranza é um disco de ritmo alucinante, carregado de timbres latinos, especialmente caribenhos, samples de pássaros e índios, movido pelo ideal supremo do tropicalismo: absorver esteticamente TODO E QUALQUER tipo de elemento, seja ele erudito, popular ou simplesmente pop. Assim, há em Alegranza samples, por exemplo, desde crianças brincando e trechos de discursos em inglês, até músicas sulameriancas do início do século XX – tudo isso sob a repetição (instrumental e vocal) incansável e insaciável de Pablo Díaz-Reixa.

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Em Pop Negro, como o nome não deixa enganar, o pop assume a dianteira do disco e sujeita aquela repetição que dava tom e ritmo a Alegranza. Enquanto no primeiro disco ouvíamos repetições e repetições e repetições numa espiral sonora que parecia infinita, onde o pop era apenas uma espécie de tempero ao grande prato (os samples), em Pop Negro a composição pop é o ingrediente principal. Essa mudança, como era de se esperar, deixou o disco algo muito mais, digamos, acessível. Os ritmos são menos quebrados, os samples, mais contidos e as repetições, mais sutis e menos longas. FM Tan Sexy, por exemplo, é uma canção feita basicamente de repetição, mas claramente mais interessada em ser cantarolada do que qualquer música de Alegranza. Se, por um lado, essa acessibilidade parece interessante e até um caminho natural ao trabalho do El Guincho, por outro, faz com que Pop Negro, ao contrário do seu antecessor, se assemelhe à produção musical mais comum dessa década.


Ainda assim, as pessoas que nunca escutaram El Guincho podem muito bem estranhar seu novo disco. Em especial os brasileiros, que tão pouco escutamos da música latina ou sulamericana. Em um país da América Latina onde até a versão do single da Shakira é em inglês, ouvir algo que vá um pouco além do pop ou rock convencional e que ainda seja cantado em espanhol já é demasiado. Mas Pop Negro vale cada esforço de audição. E é bem mais um disco de baile que Alegranza. A bateria (eletrônica) envolvente de Bombay, que inicia o disco, é um bom exemplo disso. Ou a guitarra de Novias. Não por acaso, a faixa que termina o disco se chama, numa estranha espécie de neologismo, Danza Invinto. Até mesmo Soca del Eclipse, provavelmente a canção de desenvolvimento mais estranho do disco, tem um refrão que não possui melhor adjetivo senão pop.

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Pop Negro parece ser isso: o desenrolar da tentativa de Díaz-Reixa de compreender o lugar da música latina, como um todo, nesse início de século. Um projeto iniciado com Alegranza e seguido com o EP Piratas de Sulamérica (2009), de regravações de músicas latinoamericanas. Por outro lado, Pop Negro não é mais que isso: música pop muito bem feita. Parecer complexo e simples, dependendo basicamente da vontade do ouvinte, parece ser um dos ideais maiores da Tropicália. E é também o grande feito de Pop Negro, algo a que Alegranza não tinha se proposto, sob qualquer aspecto. E é por isso que afirmo que tanto Alegranza e Pop Negro são mais importantes do que o que produzem os indies americanos. Reconhecer na música de um estrangeiro algo que deveria estar sendo feito por gente do nosso país, perceber que elementos da nossa cultura sejam talvez melhor entendidos por um espanhol do que por nós mesmos, tudo isso traz, pelo menos a mim, um misto de orgulho e vergonha difícil de descrever.

[“Pop Negro”, El Guincho. 9 faixas produzidas por Pablo Díaz-Reixa. Lançado pelo selo Young Turks em setembro de 2010. Está disponível para audição clicando aqui.]

[rating: 4/5]

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4 respostas para Disco: "Pop Negro", El Guincho

  1. Pingback: Tweets that mention Disco: “Pop Negro”, El Guincho | Bloody Pop -- Topsy.com

  2. arinspunk disse:

    Muito bom o post. Adorei 🙂
    É muito agradável ler opiniões relativas a músicos da Espanha escritas por pessoas de fora dela. Mas bom, com isto da internet… o que é dentro ou fora? 😉
    Saudações dum galego em Madrid!

  3. Pingback: MÚSICA | El Guincho | ”Bombay” « O blog do senhor Tiago

  4. evelyn andrade disse:

    estou incrivelmente apaixonada e viciada em bombay. não falta muito pra estar assim por todo o cd também, mas primeiro preciso achá-lo. haha sensacional, demais. inclusive o clipe de bombay é alucinante, diferente de tudo que já vi, é disso que a música precisa, de coisas novas, renovações, não aquela mesma coisa de sempre.

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