Disco: "The Age Of Adz", Sufjan Stevens

O Sufjan Stevens não deve estar preocupado em agradar ninguém. Com 8 discos no currículo – incluindo um Box de músicas natalinas, um disco de noise eletrônico instrumental baseado no Zodíaco Chinês e outro de folk dominical – o rapaz já tentou bastante coisa, e, já que estamos no assunto, bastante coisa boa. Não é como se ele estivesse mendigando credibilidade: isso ele tem de sobra.

É nesse cenário que entra “The Age of Adz”, primeiro disco-cheio do cara desde o pop estadual de “Illinois”. Com inspirações apocalípticas e “obsessões cósmicas” funciona como uma espécie de desconstrução do som delicado, orquestrado e precioso que tem caracterizado o artista, ultimamente. O que definitivamente não é ruim aos ouvintes, já que ele tem feito um ótimo trabalho. Mas é o próprio Stevens que caracteriza “TAoA” como uma resposta à “bagunça teatral” que caracterizava seus álbuns anteriores, cheios de uma “baboseira auto-consciente” que começava a cansá-lo, ainda de acordo com suas palavras.

A guinada estilística que tanto assustou quem já dava o moço por entendido não é tão radical quanto parece, no entanto. “Futile Devices”, de violão delicado, piano idem, vocais tímidos e reverberação de estúdio transformado em quarto, introduz o disco pelo velho Sufjan, adepto do folk e do coração (quase) partido. É o jeito dele de dizer que as coisas mudaram, mas que nem tudo é diferente, uma despedida parcial de seu antigo jeito de fazer música. Em outra situação, uma estratégia segura, já que abre o disco com uma declaração de amor exemplar, mas que se torna mais acertada pelo contexto em que é feita. “Palavras são dispositivos fúteis”, categórica e sussurrada, é a frase que encerra a faixa e serve de contraponto ao novo Sufjan, que entra em cena logo em seguida.

E parece que não ensinaram ao novo Sufjan que tudo já foi feito, porque a lógica de “TAoA” é ligeiramente progressiva. O disco inteiro é uma tentativa, de certa forma ingênua e quase clichê, de inovar seu próprio som, forçar os limites de sua própria produção. É difícil firmar uma semelhança sonora entre o disco e os trabalhos do Pink Floyd, King Crimson ou do Yes, mas certa simpatia a elementos eletrônicos, curvas melódicas esquisitas, estruturas complexas, inspirações clássicas, faixas que tomam seu tempo (grande) pra se desenvolver – vide “Impossible Soul” – e o próprio cunho conceitual do trabalho são características que não estão muito longe do modus operandi das bandas citadas. A diferença aqui é que, justamente pelo passado de Stevens, esses aspectos mais esquerdos se mesclam a uma estética simpática, acessível. Toda a dinâmica do álbum se baseia nessa relação. O disco inteiro é perpassado por um quase suspense, a toda hora reforçado pelo aspecto estrangeiro dos sintetizadores e dos glitches que põem em cheque e ameaçam um mundo que, de outro modo, seria simplesmente onírico. Diferente de seus últimos discos, “TAoA” é, no melhor sentido possível, bastante desconfortável, insatisfeito como um todo e falho (leia-se: humano) nos pontos certos.
Parte desse aspecto se justifica pelos temas que Sufjan aborda. Aqui, “você” significa bem mais que a terceira pessoa do singular e o “amor” (ou alguma variante da palavra) que figura em nove das onze faixas do disco ultrapassa qualquer noção de romantismo. As preocupações são grandiloqüentes, extrapoladas e, vez ou outra, religiosas (e “Get Real, Get Right”, a ordem é acertar e escancarar as coisas com… “o Senhor”). Afastado das cores e dos temas particulares dos estados americanos (“Illinois” e “Michigan”) ou de uma inspiração majoritariamente bíblica (“Seven Swans”), Sufjan fica livre pra abordar temas assustadoramente universais como amor e solidão, enchendo as letras de um lirismo pop super-desenvolvido.
Esse é o disco em que Sufjan, sempre comedido e calculado, faz suas indulgências, o disco em que o cara usa autotune numa faixa de 25 minutos. Ele não tá “pra putaria” (tradução livre de “not fucking around”), como deixa claro “I Want To Be Well”, que discorre sobre “pessoas fotográficas comuns”, pílulas e demônios. E, mesmo com toda a agressividade velada que “TAoA” oferece, há pequenos pontos de calmaria descomplicada, retornos a um folk só com um trabalho exímio de violão. Assim terminam “The Age of Adz” e “Impossible Soul”. E é assim mesmo que um mundo deve acabar: “not with a bang, but a whimper.”

[“The Age of Adz”, Sufjan Stevens. 11  faixas com produção do próprio artista. Lançado pela Asthmatic Kitty,  em outubro de 2010.]

[rating: 4.5/5]

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3 respostas para Disco: "The Age Of Adz", Sufjan Stevens

  1. Natalia Weber disse:

    Sufjan é louco. Gosto PRA CACILDS!

  2. Pingback: Tweets that mention Disco: “The Age of Adz” – Sufjan Stevens | Bloody Pop -- Topsy.com

  3. Na verdade comecei a escutar a obra do Sufjan ainda esse ano, e me impressionei pela versatilidade do compositor/produtor com a variação rítmica de suas faixas. Mas é preciso ter calma para escutar cada álbum com seu devido ‘timing’ e assimilar o que cada canção tem para oferecer.

    Legal essa página, já vai pro meu blogroll 😉

    Abs!

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