Disco: "Deus E O Diabo No Liquidificador", Cérebro Eletrônico

Texto originalmente publicado no Século Diário

Anda correndo, subterrâneo, um movimento estranho na nova música brasileira. Assolada pela proliferação quase apocalíptica de adolescentes com guitarras demais e cérebros de menos, a cena brasileira criou um vazio de música inteligente, mais criado do que produzido. O que tem confundido muito as coisas. Em questão de música popular brasileira – não a MPB, mas a música que faz sucesso hoje no Brasil – sobra tanto bons argumentos quanto preconceitos disfarçados de justificativa para desqualificação. De um lado, a opinião bem sustentada de que o happy rock pode até ser comportado, mas desmiolado. Do outro, um preconceito ligeiramente elitista que cria uma resistência em aceitar, nos últimos anos, manifestações populares de raiz como legítimas ou dignas de algum interesse que não seja condescendente, entre eles o tecnobrega.

O Cérebro Eletrônico, junto à boa parte da nova geração de artistas “independentes” brasileiros, é a solução de um problema. E “Deus e o Diabo no Liquidificador” é a prova disso, a evidência de que há jeito de fazer música comercial de qualidade no Brasil, incorporando elementos de gêneros malditos e (imagine só!) bregas em um som que agradaria a muita gente. Terceiro lançamento do conjunto, o disco apresenta um quinteto que, a título de reducionismo, apresenta uma levada roqueira, mas que, a titulo de esclarecimento, se recusa a fazer um só tipo de música. É certo que diversidade estilística quando se vive (e se ouve) o espelho partido que é a cultura do mashup não é tanto informação quanto um argumento muleta, mas o que se pretende dizer é que o Cérebro Eletrônico, no ponto em que está, não é tanto uma banda de rock quanto uma banda de pop, livre para aproveitar o estilo que lhe convém e tirar dele a universalidade que lhe cabe. O que é uma atitude genuinamente antropofágica – a questão não é misturar as coisas, e sim de misturar tudo que rola, de bom e de ruim, nessa sopa grossa e indecifrável que é a cultura pop. Houvesse a oportunidade, o disco teria chances reais de emplacar nas paradas e encher estádios, mas, por motivos que são fáceis de sentir e difíceis de precisar, a nova geração brasileira ainda sofre um preconceito muito grande por sua pegada suposta e pejorativamente “alternativa”. E é esse tipo de discussão que a música de “Deus e o Diabo no Liquidificador” propõe por tabela, a de refletir sobre o que faz com que certa música toque todo dia na rádio e outra, com igual potencial, fique restrita a um “quarteirão”. E o que importa, aqui, é que a sensibilidade de Decência ou o melodrama acertado da balada-de-isqueiro-aceso-no-ar que é Cama são sucessos possíveis, realizáveis.

A verdade é que grande parte das promessas musicais brasileiras vistas nos últimos dois anos dialogam muito com o pop como prática comercial, mas não necessariamente vendida. Para citar outras bandas que se encaixam na mesma leva, Tulipa Ruiz tem um som tão delicado e simpático que poderia entrar – mas não entra – em novela, o Holger cita Luiz Caldas como referência em seu disco de estréia e o Do Amor já mostrou afeição por música paraense e axé-music oitentista. Nenhum deles, parece, tem medo de ser populares. O que não significa que seus sons sejam submissos ou submetidos a uma lógica de produto. Pelo contrário: o que fazem é cada vez mais afirmar seus trabalhos como além de “música de supermercado”, comprada e largada quase no mesmo momento.

O que distingue “Deus e o Diabo no Liquidificador” de seus pares é que, em vez de ter um caráter de “importação” musical mais afeito ao indie internacional (caso do Holger) ou filtrar referências populares por uma estética torta, de aceitação mais difícil – caso do Do Amor – o disco tem um pouco menos de proposta e um pouco mais de execução direta e sem firulas. O que não é melhor nem pior, só diferente. O Cérebro Eletrônico não quer, ironicamente, fazer música cerebral, trabalhar com hermetismo ou encher suas letras de mensagens cifradas. O Cérebro Eletrônico quer ser – e é, mesmo que as pessoas não se dêem conta dissoum conjunto que destila radiofonia e viés autoral em medidas iguais. E faz isso dentro de um universo identificável, uma realidade “logo ali”, cheia de modernosos, “vestidos transadinhos”, rapazes indecentemente apaixonados e garotos que, depois de um fora, vão à forra. Ao fazer um disco que inclui, sem problemas nem esclarecimentos, o trava língua carnavalesco de “Desquite”, a levada folk de “Garota Estereótipo” e a psicodelia debochada de “O Fabuloso Destino do Chapeleiro Louco”, Tatá Aeroplano e seus companheiros se posicionam ao lado d’Os Mutantes, do Gilberto Gil, da Gal Costa, da Pitty de “Me Adora”, dos Titãs, do Pato Fu, enfim, ao lado de quem quer que seja que tenha feito, pura, simples e (o mais importante) inteligentemente, música pop. Com toda a controvérsia, contradição e pluralidade que a palavra acarreta, unidas e despedaçadas pela hélice de um eletrodoméstico.

[“Deus e o Diabo no Liquidificador”, Cérebro Eletrônico. 11  faixas com produção de Alfredo Bello e Fernando Maranho. Lançado pela Phonobase  em outubro de 2010.]

[rating: 4.5/5]

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3 respostas para Disco: "Deus E O Diabo No Liquidificador", Cérebro Eletrônico

  1. Tomas Pinheiro disse:

    “Eu tô te explicando
    Prá te confundir
    Eu tô te confundindo
    Prá te esclarecer”

  2. Pingback: Tweets that mention Disco: “Deus e o Diabo no Liquidificador”, Cérebro Eletrônico | Bloody Pop -- Topsy.com

  3. Marcelo disse:

    Comprei o CD por conta dessa crítica. Muito bom! Não me arrependo. Apenas acho que o vocal é o ponto fraco da banda. Destoa da qualidade fantástica de todo o resto. Abraço.

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