Marcelo Jeneci @ SESC Vila Mariana (SP), 16/11/10

Ele é o Roberto Carlos dos tempos em que o rei era terrível e andava de calhambeque, o Tremendão sem a fama de mau, o Odair José com uma (quase) cafonice assumida. Marcelo Jeneci é romântico sem culpa, sem ter medo de soar brega. E se rock é pura atitude, Feito pra Acabar (Slap/Natura Musical), disco de estréia do cantor paulistano, pode ser considerado uma ousadia. Mas é no palco que ele escancara o coração.

Mesmo numa noite ingrata de uma terça-feira chuvosa de novembro, Jeneci voltou ao Sesc Vila Mariana, em São Paulo, para tocar para um teatro lotado, dez anos depois de sua primeira apresentação ao vivo, então como instrumentista na banda de Chico César. Ele que já está acostumado a tocar para multidões acompanhando nomes como Vanessa da Mata e Zélia Duncan, sentiu o gosto de ter um público grande só seu. E retribuiu com um show que faz Feito pra Acabar ser ainda melhor ao vivo.

As treze músicas novas marcam presença no repertório do show e a que abre o set list é a deliciosa “Copo d’agua”, um rock inocente em que divide os vocais com os timbres doces, por vezes sedutores, da cantora paulistana Laura Lavieri. Quase uma DR adolescente, eu diria, com direito a sanfona e guitarras numa harmonia que impressiona. E, se no disco “Café com Leite de Rosas” soa enfadonha, ao vivo se mostrou mais pesada e empolgante – claro, com as devidas proporções – numa instrumentação clássica com guitarras, baixo e bateria.

Mas é com a presença de palco um tanto tímida de Laura Lavieri que o show começa realmente ganhar a platéia. O palco é todo dela com a linda “Jardim do Éden”, que, infelizmente, se mostra deslocada no disco. A falta de jeito no palco, a timidez (creio eu) que a faz mal encarar a platéia, perde qualquer importância com a interpretação delicada de Laura e, acredite, o canto em coro da platéia. As músicas nas quais ela assume os vocais, inclusive, até casam com sua introspecção. São os casos de “Felicidade”, “Pra Sonhar”, “Borboleta” (parceria ainda inédita com Zélia Duncan) e “Longe” (uma das grandes faixas do disco que só veio no bis).

As referências de Marcelo Jeneci são muito claras e o cancioneiro popular da década de 1970 é uma delas. Impossível ouvi-lo cantar com um sofrimento latente em versos como “no cine-pensamento eu também tento reconstituir as coisas que um dia você disse pra me seduzir” e não se lembrar da voz de Odair José em “Revista Proibida”. Quer saber o que é tristeza, amigo? Então a ouça. E a versão ao vivo de “Quarto de Dormir” é de arrancar lágrimas com a orquestra de câmara com regência de Arthur Verocai (que gravou um disco antológico em 1972), Jeneci ao piano e um arranjo que cresce ainda mais no palco.

E a influência da jovem-guarda de Roberto Carlos no brega romântico “Dar-te-ei” e no rock irresistível de “Pense Duas Vezes”, esta última evidenciada pelo próprio cantor (embora eu insista em perceber muito de Os Mutantes por ali), ficou escancarada com a versão feita junto com Laura Lavieri para “O Outro Lado da Cidade”, gravada pelo rei em 1969.

O show ainda ganha um contorno pop com as participações especiais. A entrada de Tulipa Ruiz e a recepção calorosa do público (o que diz muito sobre quem ouve Marcelo Jeneci) com a ótima “Dia a Dia, Lado a Lado”; a guitarra de Edgar Sacandurra, em “Por que Nós?” e “Show de Estrelas”; as dancinhas esquisitas e o iê iê iê do seu principal parceiro, Arnaldo Antunes, em “Borboleta” e “Envelhecer”. Pistas dos caminhos que o trabalho de Jeneci trilha: o universo independente e o mainstream.

Feito pra Acabar, a música. Ouvir Marcelo Jeneci quase gritar o refrão acompanhado de um arranjo épico da orquestra regida por Verocai só poderia provocar uma reação: o silêncio. Um silêncio que fez a orquestra se levantar, sem ensaio algum (como Jeneci fez questão de ressaltar), talvez percebendo que tinha feito algo grandioso.

Jeneci estava feliz e era impossível não ficar feliz por ele. O primeiro disco e um show lotado. Um artista pouco conhecido e ao mesmo tempo um compositor pop. È como Scandurra disse com orgulho: “Ele não é o Obama e nem o Lula, mas é o cara”.

Fotos: Lucas Cirillo

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