Disco: "Kaputt", Destroyer

Sejamos diretos: a verdade é que o Dan Bejar não deveria estar cantando as músicas que ele compôs em “Kaputt”. A escolha quase instintiva (e nada lisonjeante) para os vocais de “Blue Eyes” ou “Chinatown” seria a moça de cordas vocais loiras e roucamente sensuais que faz várias aparições durante a viagem de pérolas cósmicas e saxofones que ouvimos durante os cinqüenta minutos do trabalho.

A nossa sorte é viver num mundo em que tudo, até segundo aviso, é permitido. Pois por mais que Bejar não tenha a voz mais confortável ou previsível pro pop progressivo de “Kaputt”, não há saída: o disco está pronto, vazado, e o dano desfeito. Outra sorte (ou azar) é que a coisa dá certa, o álbum progride. De certa maneira, uma mente com melodias retorcidas e a voz de um crooner incomum, vibrante e tediosa terem gerado uma obra tão interessante acabam sendo um prazer tão contraditório quanto admitir que um perturbado seja o autor de uma obra prima. Ainda que o barulho que sai dos fones não seja nenhuma denúncia – o que sobra mesmo são as paisagens sonoras de sintetizadores curvilíneos e linhas que desenterram grooves de um norte-americano branco envolvido por sonhos e finas ironias – há certa tristeza, aqui . Independente do que se ouve, o que se entende são cantos sombrios: aqui e ali despontam suspeitas de melancolia ou de conflito, vislumbres da “luz adoecida da discoteca” ou do amor, “uma fera política cuja boca são mandíbulas”.

“Eu escrevo poesia pra mim mesmo” Poderia ser uma frase de efeito tirada de alguma entrevista com o rapaz, mas o petardo é o primeiro verso de Blue Eyes, segundo dos nove sucessos de “Kaputt”. A dica, aí, é que Bejar sabe de tudo que deveria ter acontecido, num mundo normal: a moça loira, uma produção boa, um disco incompleto. Despreocupado com o que acontece lá fora e fortemente influenciado por ele, o cantor abre o caminho que deseja e quem quiser que o acompanhe. Não é o nosso universo, é o dele, sutilmente aberto a um convidado imaginário.

Acompanhado por uma influência clara de um soft rock e um jazz rock sofisticados à época e relativamente datados, hoje, Bejar destila arranjos à Steely Dan e 10cc. E isso não é novidade: o frenesi que se ouviu no ano passado sobre o último disco do Ariel Pink garante um precedente a “Kaputt”. A diferença, aqui, é que não há ironia com as referências, um deboche que tanto acolhe quanto põe em seu lugar todos aqueles tios roqueiros, hoje barbudos e esquecidos num conceito deturpado e incomum de ídolo. Bejar não canta pelos perdedores, ele é um tipo raro e fascinante deles: o que faz sucesso. E ele está pouco se lixando: “Smash Hits, Melody Maker, NME, todos eles soam como um sonho pra mim”. Não o que se almeja, e sim o que parece longe, distanciado pelas cortinas que as linhas de guitarra e a atmosfera eletrônica da faixa título conjuram.

(Tem algum tempo que ele vem apresentando essa persona. Os New Pornographers, supergrupo de que ele faz parte quando não está aberto em seu próprio mundo, é um bom exemplo disso. De tendências bastante populares, à maneira sessentista e ao power pop dos anos 70, os New Pornographers têm uma dinâmica coletiva que tanto dá espaço quanto realiza concessões a cada uma das personalidades vocais do grupo, seja à verve mais country de Neko Case, seja à estranheza adorável do próprio Bejar. Ele já escreveu Silver Jenny Dollar e Jackie Dressed in Cobras, entre outras: o cara é capaz de transitar entre individualismos e empreitadas coletivas com consistência.)

Não há retrofuturismo, nostalgia emprestada, música do passado feita no presente. O único revisionismo, aqui, parece ser o da própria vida de Bejar, dos bairros próximos ao seus e dos livros que ele nunca leu (e provavelmente imaginou, como todos nós fazemos) aos baixos sem trastes usados na gravação do álbum (a própria ausência de trastes no instrumento sugere uma composição jazzística, cujos instrumentos geralmente não têm os braços “marcados” para diferenciar os semitons), incluídos numa lista de 22 coisas que devemos saber sobre “Kaputt.” Tempo, portanto, para um cantor “pobre de amor” e embriagado por contos sensuais de desencontros e melancolia. “Encaremos os fatos: almas velhas como as nossas estão nascendo pra morrer”, explica ele, acompanhado por uma linha de baixo dançante que completa a singularidade da declaração. O horizonte, aqui, não é o futuro nem o passado, ainda que o disco possa representar uma influência muito grande nos anos que ainda estão por vir. O único horizonte que resta, então, é o de um presente fictício. Mas não se engane: música boa não tem tempo.

[“Kaputt”, Destroyer. 9 faixas produzidas por JC/DC. Lançado pela Merge Records em Janeiro de 2011]

[rating: 4.5/5]

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