Disco: "Tono", Tono

Foi por descuido do calendário que o Tono não fez o barulho que deveria ter feito. Perdido num mês em que sobram festas, compromissos de última hora, horas longe da internet e um bocado mais de preguiça, o segundo disco de Rafael Rocha (bateria e voz), Bem Gil (guitarra), Bruno Di Lullo (baixo), Ana Cláudia (voz e metalofone) e Leandro Floresta (flauta e sintetizador) acabou ficando pro início do ano que ainda engatinha em seu quinto dia.

Em tempo, no entanto. Esse é o tipo de história que ronda o primeiro lançamento do Tono, que – pela combinações de fatores tão arredios quanto marketing, hype, público e mídia – acabou por não chamar o tanto de atenção que devia. O que dá uma pontada de frustração, nesse caso, é que a realidade não corresponde aos fatos. Tão pop e quase tão interessante quanto o resto da cena brasileira que tem garantido tanto elogio (e tanta esperança pro fortalecimento de uma cena genuinamente pop na música brasileiro) da crítica, não é nada mais que uma injustiça que só agora o grupo comece a vislumbrar um reconhecimento que se equipare às qualidades que apresenta.

Não é a hora de louvá-los: Tono não é perfeito. Mas o que falta em força nas músicas da segunda metade do disco sobra nas faixas de seu primeiro pedaço. Funcionando como uma ponte entre new wave, música de elevador, a tão incerta e fugidia “MPB” e um pouco de dub, o disco tem o tipo de mistura que não é novidade por si só. O autoral, aqui, está nos timbres, na poesia e na psicodelia cheia de eco que se observa em grande parte do disco. A corrente subterrânea de sossego vem da bossa e do eco do dub, o balanço do carnaval e do samba e a seriedade de boas surpresas como “Corte No Pé” vem de um rock sombrio e seguro. Abrindo com “Não Consigo”, sedução lenta e sorrateira cantada por Ana Cláudia, a banda não se entrega de vez. A letra parece simplória, mas quando a moça canta “Me pegue pelas mãos, me traga pra perto, me pegue pelo coração fazendo só o que é certo” exibindo letra, melodia e voz deliciosamente semelhantes ao repertório de uma Gal Costa em início de carreira, se percebe a diferença entre a simplicidade desinteressante e um prosaísmo poético que funciona muito bem. Deixando a faixa com suspiros e gemidos excêntricos à Mutantes, “Me sara”, talvez a melhor faixa do álbum, entra com o pé (e uma bateria excelente) na porta e destila três minutos de new wave tropicalista e vagamente sexual (pelo menos a quem escreve).

Daí às ótimas “Corte No Pé”, “Sem Falsas Promessas”, e “Aquele Cara” a distância é de um aperto de botão no mp3, sendo o único obstáculo “So In”, que se contenta em ser simplesmente “nova bossa”, cheia de suspiros e com um balanço que só era novidade na época. O problema de algumas das faixas que seguem “Corte No Pé” é justamente esse, uma comodidade em executar gêneros com pouca inventividade e composições que não salvam a falta de melodias ou arranjos memoráveis, simplesmente abrasileirando-os. Daí o problema de “Ele Me Lê”, que tenta se safar com um pouco de eco e um andamento que não é tão lento quanto mal levado, e “Da Terra Pro Sol”, perdido num balanço lento que não apresenta a sensualidade de “Não Consigo” e acaba parecendo, no mau sentido, música de elevador.

O que fica mais claro tanto pelos erros quanto pelos acertos de Tono é que, por mais que a banda tenha idéias muito boas – e saiba, com a ajuda de um produção melhor que a da estréia em estúdio e uma banda mais entrosada e decidida – o som do conjunto ainda não está plenamente formado. O que sobra, então, é um disco apto, mas um pouco confuso. Com um pouco mais de estrada e talvez um pouco menos de idéias, é capaz que o Tono encontre mais sua identidade. Por enquanto, o Tono promete mais do que cumpre.

[“Tono”, Tono. 12 faixas gravadas por diversos produtores. Lançado pelo Oi Música em Dezembro de 2010]
[rating:3.5/5]

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