As 50 Melhores Músicas Internacionais de 2010: 10-01

“I Want To Be Well” é certamente das músicas mais ansiosas que Sufjan Stevens já compôs. As batidas eletrônicas, os sopros, as cordas, os backing vocals, tudo na música reflete uma urgência nervosa não muito comum no trabalho do compositor. E mesmo quando Sufjan, mais ou menos na metade da faixa, reduz a velocidade dessa viagem alucinada por dentro de si mesmo, é só para preceder e preparar o momento logo após no qual tudo – cantor, música, letra – explode numa declaração que resume todo o trabalho de Sufjan Stevens: “eu não estou pra putaria” – como o Rafael perfeitamente traduziu o “I’m not fucking around” que o cantor grita com a emoção à flor da pele. Épica, como nada mais em 2010. (Matheus Vinhal)

Sufjan Stevens – I Want To Be Well

Embora seja uma canção de amor das mais bonitas, “Tighten Up” também diz um pouco sobre a história dos Black Keys até aqui. Muito como o protagonista da letra, a banda tentou por muito tempo – mais de 10 anos e 6 discos – para chegar aonde chegaram em “Brothers”. “I wanted love, I needed love / Most of all, most of all”, canta Dan Auerbach. Eles parecem ter finalmente encontrado. (Livio Vilela)

The Black Keys – Tighten Up

“Bombay” é a faixa mais marcante de “Pop Negro”, segundo disco do El Guincho, e a que mais deixa claro o caminho que o espanhol decidiu tomar depois de “Alegranza”. Ao contrário de samples confusos, batidas polirítmicas e letras em espiral ou looping, tudo numa velocidade alucinante, Bombay nos entrega quase o contrário: o ritmo é simples, a letra, completamente inteligível e coesa e os milhares de samples superpostos dão lugar a, basicamente, apenas um ou dois. O mais curioso é que tanto o que El Guincho fazia antes como o que passou a fazer a partir de “Pop Negro” é igualmente ótimo. E “Bombay” é seu melhor momento no ano. (E tem o melhor vídeo de 2010.) (Matheus Vinhal)

El Guincho – Bombay

“Home” não é o único momento em “This Is Happening” em que James Murphy pede para levarem-no para casa, mas é o momento é em que ele diz isso com tanta convicção que você finalmente entende o que estava acontecendo nas outras faixas (trocadilho não-intencional, perdão). Num álbum cheio de pistas falsas (garotas bêbadas, canções de a mor pouco convencionais, ótimos e péssimo covers travestidos de música autoral e até hinos anti-indústria fonográfica), o que Murphy realmente quer dizer é o quão chato é ter que interpretar esse papel de “o cara mais legal do mundo” que recaiu sobre ele depois de “Sound Of Silver”. O problema é que ele faz isso tão bem que não há como não achar que ele é exatamente isso: o cara mais legal do mundo. (Livio Vilela)

LCD Soundsystem – Home

Num ano em que  o revival dos anos 90 finalmente disse “olá” para uma audiência bem maior, Bethany Consentino foi a musa improvável. Sem ser exatamente bonita ou agradável, ela conseguiu povoar o imaginário de indies-meninos e derreter alguns corações em canções como “Boyfriend”. Ela pode não estar tão furiosa como Liz Phair em “Fuck & Run” (uma canção irmã de “Boyfriend”, de quase 20 anos atrás), mas há a mesma fragilidade compulsiva. Ela não inveja a garota “mais bonita, mais magra e que tem um diploma” que ganhou o cara (ela bem mais confiante que isso), ela simplesmente quer aquele cara. Enquanto a gente sonha em ser o tal cara, ela canta uma das melhores canções do ano. (Livio Vilela)

Best Coast – Boyfriend

Mesmo tendo um acompanhante de peso em “Tightrope”, Janelle parece estar sozinha em pleno campo de batalha. Ela luta contra um exército silencioso decidido a lhe jogar para o lado errado da linha fina que divide a música pop para agora, daquela música pop para sempre. Sem titubear, guerreia com suas melhores armas – sua voz, sua banda, seu bom senso – e avança sobre quem quer que esteja em seu caminho. Incólume. Como ela própria diz, “I’m another flavor, something like a terminator”, mas ao contrário do Schwaza, Janelle não usa força bruta, apenas sabe exatamente como controlá-la. (Livio Vilela)

Janelle Monáe – Tightrope (feat. Big Boi)


“Eu acho que todo super-herói precisa de uma música-tema”, solta Kanye logo na primeira estrofe de “POWER”. E é assim que ele ainda se vê depois de um 2009 tão ruim, que até o fez ganhar o prêmio de “vilão do ano” na NME. Mas isso é Kanye e todo mundo que ouviu “My Beautiful Dark Twisted Fantasy” sabe que ele está certo, mesmo que da maneira mais errada possível. Tão cheia de contradições quanto de explorações sonoras, “POWER” é o melhor autoretrato que Kanye poderia fazer: excessiva, agressiva, confusa, autopiedosa e cheia de si ao mesmo tempo. Um delírio genial, resumindo. (Livio Vilela)

Kanye West – POWER (feat. Dwelle)


Se o terceiro álbum do Arcade Fire fosse um filme (é roteirizável, pelo menos), “The Suburbs” seria o trailer. Um resumo bem editado dos temas, personagens e cenários que veríamos tela grande. Só que ao contrário da maioria, “The Suburbs” se basta, muito porque é o único momento do álbum em que Win Butler e companhia conseguem encapsular o misto de pertencimento nostálgico e angústia esperançosa que marca a obra-prima dos canadenses. (Livio Vilela)

Arcade Fire – The Suburbs


Eu sempre achei que a qualidade do TV On The Radio em atiçar tanto a mente quanto a libido fosse coisa do Tunde Adebimpe, mas “Tiger” provou o contrário. Quem diria que Dave Sitek, no alto do branco translúcido da sua pele e dos óculos fundo-de-garrafa faria a canção mais sexy do ano? Tudo bem que ele teve uma certa ajuda da Daisy Lowe, mas “Tiger” é uma espécie de “SexyBack” indie. E pode crer: o nerd trouxe o sexy de volta. (Livio Vilela)

Maximum Balloon – Tiger (feat. Aku)


Dizer que algo com menos de 10 anos é “Clássico” é sempre uma má ideia porque não é assim que a cultura pop funciona a longo prazo. Hype tem validade curta, é uma planta que dá flor sem ter raiz. Um “clássico”, pelo contrário, é um conjunto de semente bem plantada, bem regada, com espaço e sol suficiente para crescer e desabrochar no tempo certo. Daí você me diz, o “Is This It?” dos Strokes não era “clássico” 10 anos atrás? Era e é, mas, por exemplo, o “Highly Evolved” do The Vines, tão celebrado na época quanto, não é, nem nunca será.

Dito isto, fica até estranho dizer que “Fuck You” é um clássico. Porque é. Simplesmente é. E eu digo com um tanto de confiança porque tudo que pode te fazer odiar “Fuck You” – é difícil, mas vamos lá: a super-exposição, o fato do seu amigo coxinha e a Gwyneth Patrol saberem a letra de cor, um monte de cover tosco no YouTube, gente usado isso para mandar indireta pro ex-peguete no Facebook, camisetas com a letra estampada etc – são exatamente os motivos que fazem uma música boa permanecer no imaginário coletivo o suficiente para virar um clássico.

Cee Lo já devia saber disso quando compôs a música e a gravação, mesmo na sua versão neocon (“Forget You” MY ASS), é um desfile de classicismo. Sua interpretação é o que liga e faz uma canção de pé-na-bunda a coisa mais alegre que alguém poderia pensar em 2010. A melodia e a produção são de uma elegância anti-davidguettiana incomum em quase todo pop americano dessa virada de década (outros exemplos: “Tightrope” e “Baby”, as duas também presentes nessa lista) e, ainda sim, “Fuck You” não soa velha ou envelhecida. Ponha para tocar para uma criança de 4 ou um senhor de 64 anos e a reação será a mesma: um baita e involuntário sorriso, coisa que Cee Lo sabe fazer tão bem. (Livio Vilela)

Cee Lo Green – Fuck You

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5 respostas para As 50 Melhores Músicas Internacionais de 2010: 10-01

  1. Guilherme. disse:

    Nenhuma do Expo ’86 entre os 50? Uau.

  2. Pingback: Tweets that mention As 50 Melhores Músicas Internacionais de 2010: 10-01 | Bloody Pop -- Topsy.com

  3. Tomas Pinheiro disse:

    Suburbs nem é o que encapsula o Arcade Fire e sim Sprawl II aquilo é arcade fire puro. Uma junçao de instrumentos sem sentidos que que no final vira uma musica semi disco

  4. Na minha lista, “Fuck You” também recebeu a primeira posição por tudo aquilo que você escreveu. Cee Lo tem uma habilidade incrível para compor clássicos que ficarão por longo tempo em nossas mentes (vide “Crazy” e “Little Better”, com o Gnarls Barkley).

    Quanto à canção do Arcade Fire, concordo com o Tomas Pinheiro: “Sprawl II” é a melhor!

    Abs!

  5. Mateus disse:

    Também senti a falta do Wolf Parade, mas curti a lista. Pena que ela tenha sido divulgada tão tarde…

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