Disco: "Blue Songs", Hercules & Love Affair

Originalmente publicado no Dia a Disco

Não sei se alguém já disse isso, mas o que me parece cada vez mais claro é que os anos 2000 foram a década retrospectiva. Ressuscitando o pós-punk pouco tempo depois de seu nascimento, louvando toda uma estética oitentista por quase toda a sua vida e fazendo uma história alternativa que se baseava (mas não se restringia) a um folk mais clássico, a década gerou uma cria sonora que, em sua maioria, não nasceu isenta de um precedente que seja. O que não significa que estejamos falando, sempre de música retrô. Todo mundo se inspira em todo mundo desde que o mundo é mundo e que o Roxy Music é music. Com o fim da primeira década de um novo milênio e o início de uma nova década que mal sabe a que veio, parece haver uma mudança de ventos. O jogo referencial de quem-tirou-o-que-de-quem ainda continua, mas o movimento (não no sentido de escola ou grupo estético, mas dedireção) parece ser mais de revisionismo que revisitação. Porque, convenhamos, os anos 1980 estão distantes o suficiente pra que apresentem tanto uma parte extravagante quanto outra, muito mais descolada. Enquanto a tendência, até meados dos anos 2000, era “aprender com os mestres” e se espelhar no que havia de melhor e menos brega do passado na hora de fazer o futuro, a onda, agora, é rever os próprios conceitos. A recontextualização (e admissão, até certo ponto, do estilo original) da disco music e a repescagem de artistas ou gêneros que em sua própria época não viram muito a luz do dia (ALÔ CHILLWAVE) já são um sintoma desse novo modo fazer música.

Refazendo um cânone que se horroriza com a dance music e vê com condescendência o soul do final dos anos 1980 e no início dos anos 1990, o Hercules & Love Affair não é nenhuma exceção. Lançados inicialmente pela DFA, um selo que conseguiu se manter inovador durante a maior parte da década passada pelas referências sofisticadas e até então relativamente desconhecidas de que sua produção estava imbuída, Andrew Butler e Cia. não têm vergonha de escancarar seus ídolos, por mais “datados” que sejam. Parece haver um consenso (ainda que esse seja outro conceito diariamente posto em cheque pela abundância e segmentação de público que marcam os dias de hoje) de que os primórdios da dance music, as batidas feitas em Detroit e Chicago (pense isso, isso, isso e isso), são matéria pra festas retrô, sempre com um pingo de deboche e muitas roupas cômicas, ou pra lembranças quase uterinas dos vinteepoucoanistas da atualidade. Inspiração pra música boa, nunca.

O primeiro disco dos nova-iorquinos do H&LA, lançado no final no início de 2008, foi o que firmou o que refutava esse tal “consenso” e marcava o fim de um acordo que fazia a disco music uma coisa não tão “cool” de se gostar. Unindo as linhas de baixo que faziam sucesso no Studio 54 e a dance music proibida que faz mais a cabeça de Blue Songs, o disco apresentava e rediscutia a os conceitos que os consumidores de música mais ativos (nós, a juventude transviada) tinham aprendido.

Blue Songs continua exercendo essa tarefa. O que diferencia a abordagem que o disco faz de décadas passadas é que – assim como outra boa pedida do ano, o Kaputt, do Destroyer – Blue Songs não é homenagem nem reinvenção. É, simplesmente, uma reinterpretação de outro tempo que se encaixa perfeitamente na nossa tão amada (pós-)modernidade. Afinal, o grupo é esperto demais pra sucumbir aos personagens equivocadamente descolados das épocas que os inspiram. Envolvidos tanto por afeto quanto frieza e objetividade, o conjunto realiza, na prática, dance pop pros dias de hoje e devendo muito a dias mais longínquos, mas raramente dominado por eles (destino que tem assombrado grande parte do rescém-nascido glo-fi). Só lendo, é até possível chegar à conclusão de que esse seja mais um daqueles discos que não têm nada de novo. Quer dizer: 1) “Painted Eyes” tem referência melódica “ipsis musicis” a Blue Monday e uma sonoridade bem parecida com essa pérola, 2) “My House” tem uma melodia transexual psicografada do Soul II Soul (com direito a um barulhinho eletrônico análogo ao ruído audiovisual da fita vhs em que foi gravado seu clipe), 3) “Blue Boy” parece um Fleetwood Mac ameaçado por sintetizadores austeros, 4) “Visitor” é a mutant disco de um mundo em que sua irmã gêmea boazinha tenha nascido no início da década passada e 5) “Step Up” é o dopoperô da década que se inicia. E as letras, daquele jeito dance music de ser, tem quê de hino, misticismo, sentimentalismo e sensualidade. “Eu não vou sustentar essa cruz/eu não vou vestir essas correntes/ eu vou encontrar o meu próprio fogo” canta a moça do cruzamento entre IDM e uma batida quatro por quatro dos tempos da brilhantina que é I Can’t Wait enquanto outra moça entoa “Respostas vieram em sonhos/pra homens que realizaram grandes feitos”.

Mas todas as conclusões que se tirariam dessas descrições são refutadas pela produção do disco. Porque Blue Songs é um trabalho que só parece ser plausível quando sustentado por uma tecnologia e um espírito que nenhuma época teve, pelo menos com tanta intensidade. O que faz sentido: o H&LA, a essa altura do campeonato, não é tanto um conjunto quanto um time de produção excelente, agregando vozes (Kele Okereke, do Bloc Party e Aerea Negrot, uma cantora venezuelana até agora desconhecida por quem escreve, fazem participações) e sons com o máximo de eficávia.

A postura, aqui, é a da garota modernosa que usa um cinto de 1966 ou um vestido de 1982, comprados no brechó mais próximo. Não uma apaixonada por alguma das décadas que ela veste, mas uma moça esperta o suficiente pra usar o melhor de cada época. Se os vocais ou a melodia são um pouco estranhas, a produção (ou a maquiagem) tratam de esclarecer que isso, amigo, é cafonice calculada.

[“Blue Songs”, Hercules & Love Affair. 11 faixas produzidas por Andy Butler e Patrick Pulsinger. Lançado em Janeiro de 2011 pela Moshi Moshi]

[rating:4.0/5]

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