Disco: "The King Of Limbs", Radiohead


Eu achava que catarse, de tão forte, a gente esquecia, que a coisa toda se queimava na hora em que nascia. Mas eu me lembro – da quarta-feira que me fez acordar uma hora mais cedo que o necessário, da tela do computador de cor escura e manchas coloridas que avisava “It’s up to you”, da sensação de ouvir as batidas nervosas e a guitarra suave de “15 Step” com os olhos marejados de sono, de ir à escola de fone enterrado no ouvido (uma das poucas situações daquele começo de manhã que eu não poderia definir como extraordinária).

E se ainda é cedo demais pra ter a garantia que eu vou lembrar do fim de tarde dessa sexta, eu sinto que a memória vai guardar muito bem a lembrança de hoje. Pois foi hoje que a galeria subterrânea me parecia dizer mais do que o normal, que numa caminhada rotineira fiquei quieto como poucas vezes estive – talvez porque o silêncio vinha de dentro – e que, na volta, eu percebi a lua linda, gorda e loira acima do mar e dos montes. Tudo isso enquanto eu ouvia “The King Of Limbs”.

Mas o que mais me fascina não são as minhas próprias impressões, e sim que, durante o curso do dia, memórias tão marcantes quanto as minhas tenham nascido no mundo inteiro, de fones franceses, espanhóis, argentinos e japoneses. Que o mosaico de gostos e opiniões que não é tanto um assombro quanto um fato tenha deixado muitas das diferenças de lado e voltado sua atenção a um único disco de uma única banda. É como eu disse: não há nenhuma garantia de nada – não tive acesso a números e estatísticas que provem quão baixado foi o disco – mas é difícil sentir (ou imaginar) outra realidade, o que não deixa de ser um tipo de certeza.

Isento de qualquer tipo de religião, sentimento maior de pátria ou corporativismo, dá pra dizer que é através de arte (e de música, principalmente) que eu me sinto a parte pequena de um todo. É com o prazer que vem de um show, de um disco ou de uma banda que eu entendo o que é compartilhar algo. Pois se, aos 21 anos, eu já sei dividir o que dá pra tocar – um irmão mais novo e uma irmã mais velha me ensinaram muita coisa, nos meus poucos anos de vida – foi ouvindo música que eu aprendi a dividir o que é intangível. O que faz dos dois últimos lançamentos do Radiohead interessantes (e isso inclui um pouco de futurologia, já que não deu tempo pra que mídia especializada se pronunciar sobre o caso) é que haja uma comoção grande o suficiente pra, na base do “pague o que quiser”, o In Rainbows tenha excedido, em lucros, o que o seu predecessor (“Hail To The Thief”) arrecadara. Por mais que o som do Radiohead tenha muito de alternativo, na sonoridade, Thom Yorke & Cia. ultrapassam a noção de um fenômeno “de segmento”.

O que estabelece parte do paradoxo que o grupo representa, atualmente. Convenhamos: a verdade é que o Radiohead, ao longo dos anos, arrecadou imagem, credibilidade e técnica bastantes pra que suas esquisitices não façam os ouvidos mais preguiçosos descartar um disco como o In Rainbows ou o “The King Of Limbs” na primeira audição. Pois se o Radiohead nem sempre agradou todo mundo, o que não há como negar é que eles são muito bons em gerar curiosidade sobre o trabalho que fazem. No final das contas, é como se o público que cresceu e mudou desde a época de “The Bends” e “OK Computer” fosse leal e aberto o suficiente pra entender e apreciar o que estava por vir.

Nesse sentido, o divisor de águas para a maioria dos fãs da banda foi o disquinho estranho, complicado e maravilhoso que era “Kid A”. Foi por aí que definir o Radiohead como uma banda de rock soava mais como concessão ou generalidade que verdade. Quer dizer: um disco majoritariamente eletrônico, de composições bem distantes do conceito tradicional de canção e com influências tão herméticas e misteriosas quanto as linhas de baixo do Charles Mingus ou a aleatoriedade inconsciente do dadaísmo, aliados a todo tipo de tecnologia capaz de distorcer e refazer a voz de Thom Yorke não é exatamente um passeio no parque.

Inclusive, é natural que haja certa comparação com o que pode ser um dos discos cuja audácia sonora acabou estabelecendo alguns parâmetros àqueles que se preocupam em pensar música no futuro do indicativo, por mais difícil ou questionável que isso acabe sendo num mundo de 50 bandas novas por minuto. “The King Of Limbs” é, realmente, influenciado por música eletrônica “esquerdista”, nova e antiga, discos que, pelo que Yorke tem mostrado por meio de colaborações (seu trabalho no último disco do Flying Lotus revela mais afinidade sonora do que química social), trabalhos solitários (“The Eraser”) e até a trilha sonora que precedeu os shows da banda no Brasil (que inclui Boards of Canada, Zomby e Surgeon, todos bem afastados de simples canções pop). E há, também, o sentido clássico de desenvolvimento conferido pela experiência de Jonny Greenwood aos arranjos e timbres do novo disco. A diferença, no entanto, é que enquanto “Kid A” trabalhava mais no campo de uma paranóia sonora típica do fim de um século e o início do outro, “The King Of Limbs” se concentra num lado mais humano (e, conseqüentemente, orgânico) da banda. As faixas podem até tirar muito de sua dinâmica da chamada música tecnológica, mas as letras, aqui, se ocupam menos de hinos nacionais anti-sociais (“Everyone is so near/everyone hás got the fear”, de “The National Anthem”), mulheres e crianças presos em bunkers, esperando por uma era do gelo iminente (Idioteque) ou mensagens ilegíveis (“In Limbo”). É quase possível entender um lamento de compaixão, não de desespero ou isolamento, nesse último disco, um sentimento de cumplicidade com os sofrimentos alheios.

Há um bocado de tristeza no trabalho – afinal, estamos falando do Radiohead – mas sobra um pingo de esperança, na maioria das faixas. Mesmo que Yorke esteja dançando em volta de uma cova, em “Lotus Flower”, a dona da canção é amada o suficiente pra que ele queira se esconder no bolso dela, só pra saber o que acontece, só pra ceder ao desejo de sua cabeça de balão, perdida numa escalada rápida e inevitável. Os corpos, aqui, não se encontram envolvidos pela tensão computadorizada de um “Everything In Its Right Place”: a incerteza e o nervosismo de ritmos arredios – batidas tão dinâmicas que não precisam mudar quase nada pra se tornarem várias – contam histórias de corpos fora de órbita (“Bloom”), águas claras e inocentes, só perturbadas pelo vôo de libélulas (“Codex”), e sonhos de flores e frutas mais doces (“Separator”). Ilusões, talvez, mas não deixam de ser um contrapontos textuais interessantes e, na maioria das vezes, bastante afastados de outras letras dos rapazes.

Passada a época de revoluções, no que diz respeito à música dos caras, o que importa é a execução de um gênero que eles próprios inventaram. A questão não é dar nomes, mas entender que o Radiohead é uma banda boa e original o suficiente pra fazer música a partir dos próprios parâmetros. Nesse sentido, o ponto de onde eles dizem as coisas que dizem e cantam as coisas que cantam é o lugar em que são feitos tantos sons quanto imagens. Pois se há um modo Radiohead de abordar as coisas, uma singularidade que vive perfeitamente bem com a experiência até certo ponto coletiva que o grupo tem proporcionado, ele é sustentado não só pela música, mas pela idéia que se criou do grupo. “Isso é marketing”, devem dizer, descartando tanto o frenesi em volta do lançamento quanto a aclamação que deve segui-lo. Mas a verdade é que essa postura acaba combatendo o tipo de coisa que atinge qualquer um que leia jornal, que se inteire sobre as coisas, que saiba o mínimo sobre o trabalho dos britânicos.

É o tipo de realidade que se ouve pela voz resolvida e gozadora de James Murphy, que entende o que acontece e não se rebela contra uma ordem que não é tanto ruim quanto dita ruim. “There’s lights, and sounds, and stories: music’s just a part.”, diz ele em “You Wanted A Hit”. A verdade é que a idéia purista e romântica em que opiniões cabem dentro de universos nitidamente separados se torna cada vez mais ultrapassada. É reacionário achar que se pode deitar a cabeça no travesseiro se achando isento de preconceitos, influências e poderes completamente fora do próprio controle. E é tanto hipócrita quanto ingênuo achar que existe um mundo, inserido numa escala minimamente global (leia-se: com acesso a meios de comunicação de massa) em que as pessoas julgam música só por música ou filmes só por filmes. Declarações desse naipe, do meu ponto de vista, chegam a ser uma espécie de contrasenso grosseiro e adolescente, o tipo de coisa que eu ouviria de rapazes “comunistas” aos 16 anos.

Tomando em conta essa “ordem das coisas”, o Radiohead é um produto saudável e exemplar que temos de uma banda relativamente “unânime”. E eu digo unânime com todo o tipo de exceção, concessão e cautela que se pode dizer em fevereiro de 2011. Afinal, não faltam nichos e públicos pra transformar a chamada “opinião pública” (que não existe) em um espelho partido do que realmente acontece entre carne e concreto. O que é muito bem trabalhado, na parte de luz e estórias de que Murphy fala, é uma espécie de mitificação que foi feita em volta e pela própria banda.

O que não é pra menos: uma banda que une um público restrito e irrestrito num grupo que a interfere no marasmo chiclete de uma Billboard da vida, tem lançado discos consistentemente bons e inventivos, tem agradado tanto público e crítica em medidas quase iguais e ainda mantêm uma distância respeitosa dos chamados “haters” é coisa que se preze. E toda a lábia gasta até agora não é nem uma tentativa de colocá-los como deuses. O Radiohead é formado por pessoas normais, como eu que você, que por um motivo ou por outro acabaram fazendo o tipo de coisa que é capaz de suspender um pouco a rotina do dia, o café no escritório, suspender um pouco, enfim a vida. A questão não é achá-los perfeitos, seres de outro mundo: o que importa, aqui, é entender que a perfeição é possível, mesmo que como uma idéia muito próxima do que se tem na realidade.

[“The Kings Of Limbs”, Radiohead. 8 faixas produzidas por Nigel Godrich. Lançado pela própria banda em Fevereiro de 2011]
[rating:4/5]

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