Entrevista: Do Amor

Foto Carol Bittencourt

Foto Carol Bittencourt

Na estréia da seção de entrevistas do Bloody Pop, finalmente publico a para-sempre-atrasada conversa que tive com o pessoal do Do Amor, horas antes de um showzaço da banda no Dia dos Namorados (para você o quanto tá atrasada) aqui no Rio.

Formado em 2006, o Do Amor é Marcelo Callado (bateria), Gustavo Benjão (guitarra), Gabriel Bubu (guitarra) e Ricardo Dias Gomes (baixo). Além da banda, os quatro são ou já foram parte de dezenas de outras partes desse quebra-cabeças que é o pop carioca: Carne de Segunda,Brasov, Canastra, a banda Cê do Caê, Nina Becker, Jonas Sá, Mulheres Q Dizem Sim, etc etc etc.

A entrevista serviu para confirmar minha opinião (e de qualquer pessoa de bem por aí) que o Do Amor é uma banda singular no calejado cenário pop brasileiro. Seja no palco ou na entrevista, são quatro cabeças pensantes, às vezes com opiniões divergentes, mas que acabam produzindo uma música divertida e cerebral, inusitada e perfeitamente assimilável, que pode ser carimbó, noise-rock, axé oitentista, post-punk ou pancadão. Ou tudo isso junto.

Olhando o que eles citam como influência no myspace, dá até para pensar que sairia dali uma massaroca sem foco. Não se engane, quem sai desnorteado de um show do Do Amor é você. Doidinho, doidinho.

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Bloody Pop: Queria que vocês começassem falando de como você montaram a banda? Falem um pouco do Carne de Segunda.
Gabriel Bubu: A gente era muito amigo, tudo mundo se conhecia faz tempo. Mas no Carne de Segunda não era todo mundo, o Ricardo só tocou no comecinho da banda e também tinha um outro cara. Aí no final da banda, em 2004, fomos nos rearrumando, se reencontrando e ficamos com vontade de formar outra banda. Dando um tempo pra respirar mesmo, natural, acbou que a gente se reecnontrou.
Ricardo Dias Gomes: E também fomos tocando com outras galeras, com o Jonas Sá, com a Nina Becker
Marcelo Callado: É, acho que foi assim.

Falando do trabalho de vocês com a Nina, com o Jonas, aqui no Rio tem essa história de “todo mundo tocar na banda de todo mundo” e isso tem acontecido também em várias outras cidades do mundo, como Montreal, Los Angeles, São Paulo…o que vocês acham desse tipo de criação artística ‘coletiva’?
Gabriel Bubu: Acho que faz sentido porque você está sobrevivendo de música, e você tem que correr atrás. Não tem mistério algum. É muito mais pra viver fazendo o que gosta, do que pra ficar querendo mostrar que ‘tá tocando com todo mundo’. Não tem isso.
Gustavo Benjão: Isso não acontece só nesse meio que por acaso a gente está. Se você pegar a cena de punk-rock da Zona Norte, tem um punhado de moleques que tocam em várias bandas. Isso tem muito a ver quando se junta uma galera que está pensando a mesma coisa e quer fazer isso de uma maneira sustentável.
Ricardo Dias Gomes: Isso acontece muito em outras artes também. Teatro, artes plásticas, quem faz é uma galera que está sempre junto mesmo. E acho que esse exemplo de Montreal, Los Angeles, acaba sendo um contra exemplo, porque lá fora é mais fácil uma banda virar ‘emprego’ pra alguém, do que aqui.

Vocês já estão conseguindo viver só da banda?
Bubu: Mal e porcamente a gente vai pagando as contas com a banda. Com música a gente já sobrevive, é fazendo uma coisa aqui e ali, ralando pra caramba, mas tá indo.
Dias Gomes: A banda também tá começando a rolar agora.

Eu lembro de um debate que fui que o Gabriel do Moptop falou que já estava feliz por “viver com música”, sem necessariamente “viver só de música”.
Benjão: Eu falei uma coisa uma vez há um tempo para um amigo que era mais sobreviver de música do que viver de música. Porque na verdade a gente corre atrás de um monte de outras paradas que tão ligadas à música… É meio que tentar sobreviver nesse mercado que é restrito assim. Acho que tem uma coisa muito peculiar do país que a gente vive. É muito difícil viver de música aqui, você mais sobrevive do que vive. Você acaba tendo que estar no lugar certo, na hora certa, com a galera certa… Tem que haver um monte de coisas que convergindo para que acabe acontecendo.
Bubu: E isso acaba acontecendo naturalmente se você estiver dando as caras, ralando mesmo.

De certa forma, está acabando essa história de “projeto paralelo”.
Benjão: Essa história de projeto paralelo parece que você leva menos a sério, e na verdade não é isso que acontece.
Dias Gomes: E é complicado isso. Às vezes uma parada toma mais ou menos importância. Não dá pra saber.
Marcelo Callado: E acaba que às vezes um projeto paralelo vira seu emprego. Um exemplo disso é o Matanza, que era um projeto paralelo de dois caras do Acabou La Tequila, e virou a banda ‘principal’.

Sobre o EP, como foi a gravação?
Bubu: Foi corrido. A gente fez no final de 2006, já tem um baita tempo. A gente fez outras gravações já depois disso que não tiveram prensagem, mas foi super corrido. A gente gravou lá no Ponto de Cultura de Vargem Grande, em três, quatro dias. O mesmo número de músicas que a gente tinha na época, é o mesmo número que tem no EP. E fazer aquilo naquela hora foi bem importante, ter um registro, sabe?

E vocês gostaram do resultado?
Bubu: Nós ficamos satisfeitos de ter um registro, mas nem tanto com a sonoridade, com a própria execução.
Dias Gomes: Nós tivemos que nos preocupar com muitas coisas com a logística daquilo tudo.
Benjão: A gente bancou a parada do próprio bolso.
Bubu: Mas a gente aprecia o resultado, foi importantíssimo.
Dias Gomes: Teve uma figura fundamental nessa história toda que foi o Moreno Veloso, que fez a parada rolar bonito. Porque quando fizemos as gravações era bem capenga mesmo, e ele deu uma organizada fundamental.

Sobre o disco, como estão as gravações?
Bubu: Nós já estamos selecionando o repertório que a gente quer botar e já estamos como umas músicas quase finalizadas. Daqui a pouco fica pronto.
Benjão: Acho que já passamos da metade.
Dias Gomes: E dessa vez a gente está bem satisfeito.

E como está sendo gravar com o Chico Neves?
Callado: O Chico abraçou a parada. Mesmo o lance do EP, já veio de uma relação com ele. O Chico dava aula de áudio no Ponto de Cultura da comunidade de Vargem Grande, e por indicação dele gravamos lá.
Benjão: Na verdade, ele montou o estúdio, comprou equipamentos com a verba do MinC e pegou os moleques interessados ali e ensinou a mexer no ProTools, a mexer com áudio. Eu até cheguei a dar aulas lá pra esses mesmos caras. E foi uma grande experiência. Foi uma iniciativa dele de fazer isso, através do Hermano Vianna, que era um dos coordenadores gerais do projeto. É um negócio para própria comunidade gerar alguma coisa ali, partindo do mínimo que se coloca.
Callado: E aí desde essa época ele mostrou interesse que quando a gente gravasse outra coisa, ele produzisse.
Bubu: A gente conhece o Chico de outros trabalhos há muito tempo também.
Dias Gomes: Eu conheci ele, particularmente, quando o Mulheres Que Dizem Sim estava gravando o segundo disco com ele [o disco nunca foi lançado], e nessa época eu tocava com a banda.

Vocês já sabem quando o disco sai?
Todos: Não. [Todos falam juntos, com entonações diferentes]

Vocês já sabem como vai sair o disco? Selo, gravadora?
Bubu: A gente não tem a menor expectativa de vender isso pra alguma gravadora, naquele esquema velho.
Benjão: Expectativa sempre tem…
Bubu: Mas é praticamente óbvio que a gente enxerga muito mais outros horizontes, do que num esquema das majors que estão aqui se arrebentando num pensamento velho de mercado que não existe.
Callado: É um momento de ter novas idéias.
Bubu: Estamos vendo quais são as maneiras mais interessantes de realizar isso.
Dias Gomes: Mas com certeza a gente vai estar nas rédeas do negócio.

Vocês fizeram um show tributo pro Ween lá em SP. Vocês consideram a banda uma influência? Vocês pretendem fazer no Rio ou em outros lugares?
Bubu: Claro. Foi o Zé Flávio Júnior [jornalista da Bravo, Folha de São Paulo e ex-editor da Bizz] que ajudou a fazer lá. Seria muito legal se a gente conseguisse fazer aqui no Rio.

Vocês têm feito muitos shows em São Paulo. Vocês acham que o público paulista tem aceitado melhor o som da banda?
Dias Gomes: A gente construiu uma parada lá muito legal, mas foi muito do zero mesmo.
Bubu: Foi na cara e na coragem mesmo.
Dias Gomes: A gente insistiu, tocando sempre no mesmo lugar [Studio SP] todo mês e, surpreendentemente até, a coisa deu muitos frutos.
Benjão: Também acho que é mais fácil começar por lá. Você tem mais lugar pra tocar, lugares que banquem uma banda que está começando a rolar. Talvez o pessoal de lá seja um pouco mais interessado, esteja mais afim de ver novidade, saia mais de casa. Aqui no Rio tem gente assim também, mas é uma parcela menor do que lá.
Bubu: A gente teve uma entrada legal muito porque uma amiga, que era nossa produtora até pouco tempo, era de lá. Foi quem ajudou a marcar os show, conseguiu matéria no jornal. E depois a coisa começou a pegar de uma forma autônoma, cada show vai ajudando o outro, né?

Vocês tocaram também em alguns festivais, o que vocês acham da experiência de tocarem nesses eventos?
Dias Gomes: É sempre muito maneiro. O clima de festival é muito legal.
Bubu: Tem sido muito legal. A gente conseguiu em maio fazer show todo final de semana fora do Rio e todos em lugares diferentes. E foi massa.
Benjão: E tem essa parada de festival que é o local que junta essas pessoas que estão interessadas mesmo. Cara vai ver uma banda e fica lá para conhecer outras. É o melhor lugar para formar público.

Tem muito material de vocês no YouTube. Como vocês se relacionam com a internet?
Callado: Quanto mais coisa melhor. Na verdade, a gente mesmo nunca botou um vídeo no YouTube. É só uma galera que às vezes a gente nem conhece que vê o show filma e coloca lá, o que é até mais legal. No Casarão, foi uma mulher que a gente não faz idéia de quem seja que filmou e colocou lá.

E outros tipos de lançamentos na internet? Disco?
Bubu: As gravações que fizemos depois do EP, só colocamos no myspace, no mondo77, no last.fm, no tramavirtual…

Falando nisso,  foi a gravação nos estúdios da Trama? [A banda gravou a faixa “Cachoeira” no quadro “12 horas no Estúdio” para o programa do Trama Virtual na TV]

Callado: Foi maravilhosa. Rapidinho aprontamos a música.
Bubu: O legal é que nesse esquema deu para ensaiar e gravar com calma, mais ou menos no esquema que a gente já tinha feito aqui no Rio no Hanói.
Benjão: Esse negócio de lançamento na internet é uma parada complicada. Li um artigo do Ronaldo Lemos [Diretor do Creative Commons no Brasil] esses dias e eu concordei bastante com ele. O texto falava que agora na música você tem que achar maneiras de ganhar dinheiro. Ninguém quer que o artista gaste dinheiro pra caramba numa gravação e depois coloque tudo lá de graça. Tudo bem que isso vai acontecer inevitavelmente, mas quando você faz um lançamento oficial, acho legal você colocar um preço justo, porque você sobrevive disso.
Dias Gomes: O problema todo é que disco é caro, se fosse barato não tinha problema.
Benjão: Essa história de se ‘auto-lançar’ é uma onda que vem contra isso, porque as gravadoras por anos e anos ganharam fortunas com disco, enquanto que o artista ganhava pouco. Agora acabou esse negócio.
Bubu: Achou que essa opinião de que música tem que ser de graça cresceu a partir dessa falência do mercado, e é uma coisa meio incontrolável. Mas talvez não tenha que ser assim.
Benjão: Então se você pensar num lançamento oficial na internet falando que ‘tá disponível tudo de graça’, a música meio que perde valor. As pessoas ainda teimam em valorizar só o disco físico, mas acho que você fizer um lançamento oficial na internet tem que ter um preço justo sim.

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O Do Amor faz show nessa terça-feira, 26 de agosto no Teatro Sérgio Porto no Humaitá no Rio. A presentação faz parte da festa de 18 anos do tradicional projeto de poesia CEP 20.000. Os ingressos custam 4 reais.

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Na próxima semana, quem aparece por aqui é David Portner, mais conhecido como Avey Tare, uma das mentes por trás do Animal Collective. Ele fala sobre o aguardado nono (!) álbum da banda e expectativa pelos shows no Brasil. Cola aí.

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3 respostas para Entrevista: Do Amor

  1. Nani disse:

    você é fodão.

    não conheço nada deles, pra ser honesta… só sei que o callado é (era?) batera do caetano porque fui no show dele ano passado. mas de alguma maneira, com esse nome, sempre imaginei que era uma banda de garotas. “do amor”, sei lá. parece tão garota. agora sei que são machos, fiquei até curiosa…

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