Entrevista: Móveis Coloniais de Acaju, P_rte II

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Nesta segunda parte da entrevista que fizemos com o Móveis Coloniais de Acaju podemos imaginar como foi o processo de gravação de “C_MPL_TE”, o novo disco do grupo, que sai pelo Álbum Virtual da Trama no fim deste mês. Fábio Pedroza, Esdras Nogueira e Beto Mejía falam de como este processo foi modificado e remodificado ao longo do tempo, por decisões próprias ou por adaptações a novas exigências. O grupo também fala de algumas músicas novas, de como foi a participação do produtor Carlos Eduardo Miranda na gravação do disco e  de como o grupo lidou com a aparição de alguém que pudesse definir o rumo do novo disco tanto quanto o próprio Móveis.

Ainda não leu a primeira parte da entrevista? Clique aqui e leia. Já leu? Então leia a continuação logo abaixo. Não se esqueça, amanhã publicamos a última parte da entrevista do Bloody Pop com o Móveis Coloniais de Acaju. Boa leitura!

por Matheus Vinhal

Bloody Pop: Pelo que deu para ver nas apresentações de vídeo, ao vivo, houve uma espécie de mudança de linha melódica nas músicas, principalmente nos sopros. Antes vocês chamavam o som do Móveis de “feijoada búlgura”…

Esdras Nogueira: É, hoje eu não sei do que a gente pode chamar…

Beto Mejía: Mas o que você achou do sopro?

 

Bloody Pop: Eu achei que [o sopro] saiu um pouco das melodias bálcãs e foi mais para o pop. Isso foi algo premeditado ou natural, mesmo?

Beto: Bem, o bálcã se caracteriza por algumas coisas. Ele tem uma coisa da ritmicidade que é muito grande e tem escalas, ditas balcânicas, que caracterizam isso. Basicamente são essas duas coisas que definem [o bálcã]. Acho interessante você falar isso porque a gente continuou usando muito das linhas melódicas e a gente mudou a coisa rítmica. Na verdade, as coisas rítmicas a gente deixou ainda um pouco, mas menos evidente. Então, por exemplo, isso foi uma coisa que o [Carlos Eduardo] Miranda até direcionou. A gente mostrava algumas músicas e ele falava: “Cara, isso é muito bálcã. Isso é uma cópia de bálcã. Vocês têm que interpretar isso de alguma forma e colocar na linguagem de vocês.” E é isso que a gente fez. A gente conseguiu colocar um tipo de referência sem ser chupada, tão na cara, como às vezes era, um pouco, no “Idem”. Não sei se foi bom ou ruim, só saiu desse jeito.

Esdras: O Miranda teve muita influência nessa onda de não ser referente. O cara era um dicionário: dois iPods, um computador, então o cara sabia muito de tudo. Muita coisa que a gente mostrava, ele falava: “Cara, isso aqui é meio assim, né?” E colocava uma banda lá de não sei onde, do interior da Europa Oriental. Aí falou: “Ó, caminha por isso aqui”. E só botou punk rock, cara. O primeiro encontro que a gente teve com ele, ele só botou punk rock.  E depois a gente foi trabalhando essa estética de não ser referente, mesmo. Buscar ideias sem ser referente… Na real, velho? O Miranda deve ter pensado: “Eu vou encher esses caras de coisa para eles pensarem no que eles vão fazer”. (risos) Ele mostrou muita coisa.

Fábio Pedroza: No primeiro dia ele passou só punk rock – só isso. Tinha um skazinho ou outro. Aí na segunda vez ele já passou um monte de ska, tradicional, que todo mundo já tinha no iPod. Aí a gente ouvia tudo. Depois, ele colocou um monte desses indie hype. O Vampire Weekend, por exemplo, a gente conheceu lá no iniciozinho do processo. Não sei se ele escuta tudo aquilo, não. (risos) Mas ele andava sempre com um computador de 250Gb, um iPod de 160Gb e um outro iPod de 80Gb.

Esdras: Mas o Miranda sabe assim: “Olha isso aqui. Parece isso aqui, né?” É bem louco, e é massa porque o Miranda não sabe tocar, não sabe cantar. Ele sabe ouvir a música e dizer: “Tá bom. Isso não tá bom. Toca assim [e balança o braço alucinadamente]: bém-bém-bein-bein-bein”. E era justamente isso que a gente acha que faltava um pouco. Ele jogou um conceito, sacou? Ele entendeu o álbum e a gente foi trabalhar esse disco. A gente chegou com 25 músicas, 30, sei lá, uma pá de músicas. Ficaram 5. Ele limou coisas que a gente gostava. Ele tirou quase tudo que a gente gostava. (risos) E ele falou assim: “E essa aqui, U-hu?”. [Falso Retrato] “U-hu” era uma música que a gente não dava nada por ela. A gente mostrou para encher linguiça. Foi a última a ser mostrada. Naquele ensaio de quatro horas, faltando dez minutos para acabar, você mostra a música pro cara e ele fala: “Caralho, essa música é muito foda! Foi a que eu mais gostei” (risos). A gente ficou assim: “Caraca, tem certeza? Não quer que a gente toque de novo?” E a gente tocou de novo e ele: “É isso mesmo, véi!” (risos). Aí, nego falou: “Velho, vamos desapegar, a gente chamou o Miranda para fazer, o Miranda vai fazer. Se ficar uma bosta a culpa é dele.” (risos) Vamos deixar ele fazer.

Fábio: É aquela história: se ficar uma bosta a culpa é da banda, se ficar bom a culpa é do produtor. (risos)

Esdras: Mas foi isso. E esse começo [a gente] foi, tipo, se conhecendo. Depois, bicho, a gente já sabia que o Miranda ia vir, já preparava os negócios e o Miranda já falava: “Porra, vocês tão ruins pra caralho! Estuda essa porra, velho!” Já tava assim e já tava tranquilo. (risos) Mas também quando estava bom ele pulava no teto. “Caralho, tá muito bom!” (risos) Tipo, “O Tempo”, cara, era uma música totalmente diferente. Ela não tinha introdução, e ele falou: “Essa música tá boa, mas tá faltando alguma coisa.” Aí, ele foi fazendo: “Tenta fazer isso, tenta fazer aquilo, joga essa introdução no começo, começa com o sopro…”

 

Bloody Pop: Tem uma parte no Diário de Gravação que vocês estão “montando” uma música…

Fábio: (Risos) É [Para Manter ou Mudar] “A Do Piano”.

Beto: Foi assim: no final do processo – a gente tinha um prazo para gravar o disco, né? – a gente tava meio desesperado porque as músicas entravam e o Miranda: “Tá legal”. Aí a gente: “E agora? Vamos compor outra”.

Fábio: Mas o pior não foi isso. Foi o seguinte: ele chegou lá no dia, a gente passou todas as músicas, aí a gente passou essa música de novo porque ele pediu e falou: “Cara, essa música não tá boa! Tô indo embora, tô voltando para São Paulo: resolvam.” E foi embora! (risos)

Esdras: Não, nessa hora ele não foi embora. Ele foi comprar revistinha, água, sei lá. Mas deixou a gente lá esperando uma hora, todo mundo desesperado.

Fábio: Tinha que resolver, cara. (risos)

 

Bloody Pop: E como foi fazer esse Diário? Porque ele serve como divulgação…

Esdras: As bombas ainda estão por vir! (risos)

Beto: O Esdras que resolveu fazer. Ele que pegou as coisas e começou a fazer, e foi muito bom.

Fábio: Ficou aquele vídeo tosco. Aí ele [Esdras] vai melhorando. Aí quando ele aprende a fazer cortes, aí ele coloca os cortes. Depois ele aprende, sei lá, a mexer na velocidade [do vídeo]…

Bloody Pop: É, tem uns vídeos que tem algumas coisas de vanguarda… (risos)

Fábio: Pois é! (risos)

Beto: (Para o Esdras) É, acho que ele te entendeu cara! (risos)

Fábio: Aí ele aprendeu a repetir a partezinha do meio no começo. (risos)

Beto: Mas essa iniciativa do marketing veio do Esdras, mesmo, que foi bacana.

Esdras: É porque a gente tava gravando em São Paulo. Mas aquilo lá foi filmado de propósito, só que estava lá, brutão. Tava no computador de alguém. Aí eu peguei e, sei lá por que, eu descobri o MovieMaker no computador. É porque a gente gravava o dia inteiro, aí todo mundo voltava cansado para o hotel. E eu não durmo cedo, cara. Eu chegava cansadão, mas não conseguia dormir. Aí eu ficava no computador, cansado de ver… er… emails (risos) e ficava lá me divertindo vendo neguinho falando merda para caramba.

 

Bloody Pop: E quais são as bombas que vão vir?

Esdras: Não, tem umas bombas aí…

Fábio: Tem, por exemplo, uns vídeos da Europa que ele tá editando.

Esdras: Só que aí os profissionais amigos nossos se amarraram na ideia. A ideia dos vídeos no site veio daí, só que aí já tinha direção do Maboru [Yamamoto], um cara daqui que já trampa com publicidade e o Hugo [Pachiella], que trabalha com finalização.

 

Bloody Pop: E esses vídeos vão virar alguma outra coisa?

Esdras: Vai virar um DVD.

Fábio: Engraçado é isso, como que a gente saiu de um processo… (para o Esdras e para o Beto) vocês falaram disso?

Esdras: Não, não.

Fábio: O disco era para ser um CD ao vivo, com a gravação de um DVD. Até dois dias antes da gente entrar no estúdio, era isso. Foi muito louco, cara, porque isso deu um pouco de problema para a gente, mas por outro lado, criou o que aconteceu, o que tá aí e que a gente acha do caralho. O CD inteiro foi preparado, os arranjos, os ensaios: foram todos preparados para a gente gravar ao vivo. O Miranda falou: “Vocês vão gravar, todo mundo, ao vivo. A gente vai filmar isso e vai sair um CD com DVD”, cruzão e tal. Tanto que tudo que ele mostrou para a gente era um bocado de coisas cruas. Exatamente isso: “O que você tá tocando é o que vai estar sendo gravado”. Aí, dois dias antes de começar a gravação, decidiram efetivamente que tinha caído o DVD por questões de orçamento.

Esdras: Aí a gente falou: “Então, beleza, vamos fazer o CD [ao vivo].”

Fábio: Aí fomos lá e gravamos dois dias de som ao vivo, pré-mixado e tal. Aí o Miranda chegou e falou: “Beleza. Agora vamos gravar um disco de verdade.” Ele decidiu fazer um disco de estúdio. Dobras e dobras e dobras e dobras…

 

Bloody Pop: E foi gravado aonde?

Fábio: Na Trama. Tudo na Trama. Muito louco, né? Porque, cara, como é que você sai de um CD ao vivo para um CD completamente de estúdio, com cada coisa milimetricamente colocada no lugar, pensada, sonoridades com peso?

Esdras: É, ficou um disco assim que… O Beto que ficou lá editando depois (risos). Ele ficou só dois meses [em São Paulo] trancado no estúdio, depois editando tudo. O bicho voltou magro. (risos)

Beto: É, o disco foi pensado para ser um disco ao vivo. Quando a gente se depara com essa coisa de estúdio, muito ficou por conta do Rodrigão e do Miranda – o Rodrigão é o tecnico de som, né – que acabou sendo o coprodutor do disco, também, porque ele conseguiu visualizar muita coisa do disco que, pela distância – da gente morar em Brasília e ter que ficar aqui – não tinha como ficar todo mundo lá, toda hora, dando palpite. Então eles direcionaram muito e muito do processo final também é deles. De timbragem, de o que é mais importante em alguns momentos. Quando a gente fez o disco a gente pensava em uma massa sonora e as nuances era um pouco mais diferenciadas. E quando o disco é pensado para estúdio, o processo é mais demorado, mas tem um outro tipo de concepção. Então, o resultado que a gente tem hoje é totalmente diferente do que a gente imaginava quando foi gravar.

Fábio: [Diferente] Do que a gente pré-produziu, por exemplo.

Beto: Exatamente.

Esdras: Mas acabou que foi bem natural.

Fábio: É, porque além disso, a gente, por uma questão de problemas técnicos, de master… e o pessoal do sistema falou: “Não dá pra fazer o Álbum Virtual nesse prazo. Vai precisar de um pouco mais [de prazo]. E aí, cara, o que a gente faz? O show já estava marcado, já tinha um monte de show marcado depois, fora de Brasília, e não tem outra data para marcar em Brasília. Não dá para a gente parar. E aí, o que a gente faz? Aí a gente: “Vamos vazar o disco”. E aí a gente fez essa gravação ao vivo. Então, é muito louco, porque apesar dos arranjos serem praticamente os mesmos – e, estruturalmente, são os mesmos –, soa muito diferente. Soa como duas bandas. São duas sonoridades completamente distintas. E o legal é isso, porque a galera conheceu a música, como vai ser no show…

Esdras: A galera conheceu a canção.

Fábio: É, e vai conhecer, depois, o disco.

 

Amanhã, domingo, não perca a última parte da entrevista do Bloody Pop com os Móveis Coloniais de Acaju. Até breve!

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