Isso nem parece um fim

“Pô cara, mas por que?” tem sido a reação mais comum quando eu conto para alguém que, sim, depois de 3 anos e alguns meses, o Bloody Pop chegou ao fim. Eu mesmo me fiz a mesma pergunta várias vezes.

A comparação pode soar um pouco pedante, mas eu gosto de pensar que o Bloody Pop está acabando como o LCD Soundsystem. Na melhor vibe possível, cheio de ideias pro futuro, sabendo que vem outra linha, outro parágrafo, outra página depois do ponto do final. Não é desistência ou de desânimo, é, pelo contrário, vontade de fazer mais. Vontade essa que entende que às vezes algumas coisas precisam ficar para trás para que tudo siga no rumo certo. Daí o título.

Nessas horas de morte é sempre correto dizer algumas palavras de agradecimento, então vamos à elas.

Antes de qualquer coisa, um agradecimento público a todo mundo que colaborou com o Bloody Pop, a melhor equipe que eu poderia imaginar:

Alessandra dos Santos
Bernardo Barbosa
Enio Jr.
Giovanna Ruaro
Helaine Martins
Israel Bumajny
João Oliveira
Lidiana de Moraes
Matheus Vinhal
Marcelo Adelar
Rafael Abreu
Tomás Pinheiro

Em segundo, a todos os músicos, assessores, produtores, colegas de profissão e parceiros em geral que acompanharam o Bloody Pop nesses 3 anos. Together we’re heavy, diria o nome daquele disco.

Por último, a todo mundo que passou por aqui, que gastou alguns minutos lendo e discutindo música com a gente. Se o blog chegou onde chegou – e eu acho que a gente foi bem longe – a culpa é de vocês também.

Dito isto, informo que nesse novo endereço – https://bloodypoparquivo.wordpress.com – o legado do Bloody Pop vive até quando os servidores do wordpress existirem e a gente espera que isso seja para sempre. A casa nova não é tão organizadinha quanto a antiga, mas é um bom lugar para descansar.

Qualquer pessoa que queria me contatar diretamente (ou que mandou email para livio.vilela@bloodypop.com ou contato@bloodypop.com e recebeu uma notificação de que esse email não existe mais), só mandar sua mensagem para liviopvARROBAgmail.com que será muito bem atendido.

Se tudo der certo, daqui a alguns meses eu volto aqui para contar sobre a fita que tocou depois do Bloody Pop. Pode deixar, eu aviso.

Um grande abraço,
Livio Vilela

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Disco: "Tomboy", Panda Bear


Tomboy é um disco pesado, em vários sentidos. E como todo trabalho que segue uma obra-prima, carrega o irmão mais velho nas costas.

Carga inevitável, já que “Person Pitch” deveria ter sido um sonho. Sabe-se lá por que curto-circuito místico, biológico ou cultural Brian Wilson resolveu doar parte de seu dom de voz e melodia a um magricela americano com idéias demais na cabeça, mas deu no que deu: disco lançado, disco aclamado. E com razão – com um pouco de Cat Stevens, Kraftwerk, Enya (!), pelo menos uma coruja e mais uma miríades de barulhos não identificados, a parte urso do Animal Collective acabou lançando o tipo de música que ninguém nem sonhava existir. E foi esse surrealismo doce e suave que cativou tanta gente, em 2007.

A última viagem de Noah Lennox, nesse contexto, é gêmea do que parecia ser o disco preferido de todo mundo, quatro anos atrás. Mas se “Tomboy” e “Person Pitch” têm traços bastante semelhantes, há diferenças decisivas em seus rostos

Sinais de uma mudança sutil, mas não irrelevante, apareceram cedo, e da boca do próprio artista: “Tomboy” seria mais sombrio e menos sampleado que seu trabalho anterior, com ritmos e timbres bastante eletrônicos. E o jeito do álbum já dava as caras na série de singles que antecipou seu lançamento: a faixa-título, a primeira de suas quatro prévias, mostrava um Panda Bear parecido, mas diferente, co o rapaz praiano de “Person Pitch”: lá estavam as repetições, lá estavam os acordes insistentementes ecoantes e lá estava sua voz múltipla, disposta em várias camadas de “segundas vozes”.

Nada de novo até aí, não fosse uma ambiguidade ausente da maioria das coisasque fizera, até então. Afinal, “Person Pitch” era envolvido por enormes borrões desamples, violões e vozes organizados em células minúsculas e repetitivas, mas havia um porto seguro eternamente confiável, representado por seus vocais, destacados e inconfundíveis. No meio das circunvoluções sonoras que secruzavam, vagas e quase indistinguíveis, quem tomava a frente e se apossavados ganchos mais imediatos e memoráveis do disco era a voz açucarada do garoto, aguda e exata na afinação. Eram faixas sem limites: cada canção, em vez determinar, se dissolvia em outra, e assim por diante. Como o som do metrô que seafasta ou se achega, lento e ao longe, no fim de “Take Pills”, eram barulhos que, mesmo concretos, já pareciam um pouco fantasmagóricos.

Há ainda outros pontos que provam a gestação bivitelina cujo último filho a nascer é “Tomboy”. Formado da parte mais torta de seu pai, se mostra diferenciado desde a primeira faixa, “You Can Count on Me”. “Você pode contar comigo”, ele diz, e no ponto em que, fosse outro álbum, Lennox começaria a repetir infinitamente o mesmo verso, o rapaz leva a letra pra frente, numa melodia que vai do mais alto aomais baixo de sua voz em pouco tempo. À maneira da primeira faixa, a maioria das canções respira, dá passos largos e se retorce, melodicamente, pra só depois se esparramar com o prazer da repetição. Em vez dos refrões fáceis e imediatamente recompensantes que apareciam do começo ao fim de “Person Pitch”, Noah constrói, com a voz, estruturas maiores e mais elaboradas. E é nesse ponto que o sentido de mantra se completa. Antes aplicada à lógica melódica de refrões ocidentais ensolarados, a natureza cíclica das composições permanece, mas é o desenvolvimento das melodias, agora mais estrangeiras (cujos exemplos mais claros são “Scheherazade” e “Drone”), que permite a aproximação com o conceito hindu. Há poucos pontos em que elas vêm fáceis ou assobiáveis – ocidentais, em suma – vêm mais em ondas, muito lentamente, e vão se abrindo aos poucos.

Contrária a essa estranheza melódica, o último trabalho de Noah parece mais formados por canções propriamente ditas, ainda que de uma maneira bem peculiar. São onze idéias que, concentradas em poucos minutos (nada perto da duração colossal de uma Bros, por exemplo), se apresentam, se desdobram dentro dos próprios limites e vão embora, cada qual a seu modo – pequenas cápsulas em que se condensam universos inteiros, baseadas um pouco menos em repetições melódicas e um pouco mais em estruturas que avançam, aos poucos, sobre o mesmo tema, com a ajuda de produção segura em suas viagens.

O caso não foi sempre esse. Em versões mais antigas das faixas, datadas da série de singles que começaram a ser lançados no ano passado, a mixagem era menos precisa. As batidas eram vagas e as guitarras não tinham a força que deveriam ter, até chegar Peter Kember. O rapaz, auto-denominado Sonic Boom, cuja primeira banda foi nada menos que o Spacemen 3, deu às faixas a produção e os pequenos acertos de que precisavam: contornos mais claros, batidas mais fortes e acordes mais robustos, todos muito bem situados no espaço que um fone de ouvido é capaz de criar. E é essa produção, feita sob medida para o álbum, que estabelece grande parte de sua ambivalência.

É por isso que é difícil dizer qual é a força-motriz de “Slow Motion”, por exemplo. Se é a batida sampleada dos “Honey Drippers”, se é o cântico lento dizendo que “todo mundo sabe o que eles dizem” (“a prática leva à perfeição”, “cachorro velho não se adestra”, “melhor previnir do que remediar”), as guitarras repetitivas, lentas e lânguidas. A mesma coisa acontece quando a voz de Lennox aparece em Surfer’s Hymn, primeiro em destaque, depois abafada pelo som de mil batidas sussurradas em voz alta. A fluidez, aqui, se dá pela dinâmica de cada um desses elementos, num troca-troca eterno de quem é o mais importante, sempre em relações traiçoeiras e confusão. De forma que todo som se torne tão protagonista quanto coadjuvante, tão lembrado quanto esquecido.

É por isso que o disco talvez seja difícil de engolir, àqueles que compraram Lennox por suas rimas simples, com um quê de cantiga de ninar. O equívoco é esquecer as preces amorfas que ele tinha feito pela morte de seu pai, anos antes, em Young Prayer. Varrido pra debaixo do tapete, quando Person Pitch estourou, o disco resiste tanto a uma saída fácil e explícita quanto sua nova empreitada musical.

Ao contrário das meditações gravadas em quarto de “Young Prayer”, no entanto, o disco carrega uma tensão bastante elaborada. De um lado, o estabelecimento de limites entre as faixas, que separam tão bem “Friendship Bracelet” de “Afterburner”, uma seguida da outra. Do outro, uma vontade enorme de desnortear o ouvinte que se encontra dentro dos “lugares” que o disco apresenta.A intenção, inclusive, parece ser a de eliminar referências externas, fazer de cada experiência um acontecimento autônomo. O tempo de apreciá-las é justamente o tempo de ouvi-las: pouca coisa, aqui, perdura na mente depois que “Tomboy” passa, lento, pelos ouvidos. Pouca coisa inteira, pelo menos. O que restam são impressões, atmosferas marteladas no cérebro, um pouco atordoado e confuso, quando o caso é lembrar o que apreendeu.

“Sonhos que um dia a gente teve/ a gente teve eles de verdade?/Parece que sim/agora os teremos pra sempre”. No que pode ser a melhor canção da safra, “Last Night at the Jetty” – cujas únicas competidoras são a já citada “Slow Motion” e “Alsatian Darn” – Lennox não tem certeza de ter sonhado, se pergunta o que realmente aconteceu e se rende à forte lembrança de uma diversão passada – ”se eu me lembro do que senti, os sonhos devem ter acontecido”, parece pensar. E pouco importa o que realmente aconteceu, se a memória está lá. Verdadeira ou inventada, a incerteza é tremenda, mas prazerosa.

[“Tomboy”, Panda Bear. 11 faixas com produção de Panda Bear e Sonic Boom. Lançado pela Paw Tracks/Vigilante em Abril de 2010.]
[rating:4/5]

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Disco: "Collapse Into Now", R.E.M.

Podem me contar entre aqueles que, depois do lançamento de “Around the Sun”, de 2004, achavam que o R.E.M. não tinha no seu estoque nem uma cançãozinha mais ou menos memorável para oferecer, quem diria um álbum inteiro. A história oficial é de que o “retorno” da banda à forma aconteceu no disco anterior, “Accelerate”, de 2008, o que é parcialmente verdade. Continuar lendo

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Nova do Domenico Lancelotti – "Cine Privê"

2011 vai ser um ano bastante agitado para o +2 mesmo não tendo nenhum projeto do trio como tal vindo aí. O primeiro a lançar-se sozinho é Domenico (Kassin prepara “Sonhando Devagar” e Moreno assina com o pai a produção do novo disco da Gal), que solta ínicio de abril o disco “Cine Privê”.

O álbum, que sai pela Coqueiro Verde, já vem sendo apresentado ao vivo desde o ano passado no Rio e em SP, mas só agora dá para ter uma noção melhor de como soa “Cine Privê”. Domenico participou essa semana do Estúdio Oi Novo Som e apresentou um punhado de antigas (“Alegira, Vai Lá”, “Te Convidei Pro Samba”, “Aeroporto 77”, “Possibilidade”) e novas canções (“Su Di Te”, “Hugo Carvana”, “Receita”, “Cinco Sentidos”, “Sua Beleza”, “Pré-Carnaval”).

Se esse material indica alguma coisa é que “Cine Privê” será bem mais um disco de canções do que experimentações, como foi o “Sincerely Hot”. Uma opinião que parece bem mais concreta quando se ouve a faixa-título, que Domenico gentilmente colocou no Facebook.

Domenico Lancelotti – Cine Privê

A produção é primorosa, colocando a bateria à frente e teclados e efeitos paranóicos numa faixa que a princípio seria calminha. Domenico canta submerso pelo instrumental, enquanto a guitarra (Pedro Sá ou Alberto Continentino) sola bonita. É delirante e deliciosa.

O show de lançamento do disco será no Solar de Botafogo (no Rio) no dia 05 de abril.

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Nova do Fabio Góes – "Tão Alto e Fora do Lugar"

Já dava para saber que os caminhos que o músico paulistano Fabio Góes iria percorrer em seu segundo disco seriam bastante diferentes do excelente “Sol No Escuro” de 2007. O próprio Fabio nos disse em entrevista que o novo disco seria “menos introspectivo, menos melancólico, menos lento, menos hermético” e é isso que mostra o primeiro single “Tão Alto e Fora do Lugar”.

A faixa é a primeira de “O Destino Vestido De Noiva” (belo título, aliás) a ser liberada e mostra Fabio deixando de lado os climas sóbrios do primeiro álbum em lugar de uma pegada mais vibrante. Há uma bem-vinda semelhança com pop rock por definição do norueguês Sondre Lerche, o que certamente deve agregar novos fãs.

A Phonobase lança o disco, que tem participações de Kassin, Luísa Maita e Curumin agora em abril maio. Dá para ouvir e baixar a faixa no hotsite (também dá para baixar “Sol No Escuro” por lá).

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Nova do Arnaldo Baptista – "I Don't Care"

Para um artista que ninguém sabia se conseguiria voltar a ser artista novamente, Arnaldo Baptista tem se mantido bem ativo nos últimos anos. Seja reativando sua carreira discográfica (o último, “Let It Bed”, saiu em 2004 na revista do Lobão), participando da volta dos Mutantes (na parte em que foi minimanente interessante, pelo menos) ou sendo objeto de documentário, Arnaldo mantém a chama acesa.

A próxima investida é o disco “Esphera”, que deve ser lançado em algum dia entre hoje e o fim do ano. Não se sabe muito do disco até agora, além do nome e que Arnaldo considera esse o seu “LP mais feliz”. Para aguçar a ansiedade de quem espera “Esphera” (HA!), o mutante liberou para Rádio Uol o streaming da faixa “I Don’t Care”, ouve só:

Arnaldo Baptista – I Don’t Care

Dá para seguir Arnaldo no twitter, face e tumblr.

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Disco: "Angles", The Strokes

Em “Machu Picchu”, a faixa de abertura geográfica de “Angles”, Julian Casablancas & Cia. fazem, cada qual à sua maneira, as vezes de desbravadores. “Eu só tô tentando encontrar uma montanha pra escalar” é a frase que se ouve entre atabaques e um quê de latinidade.

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